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  1. quinta-feira, 19 de março de 2015

    Essa história foi citada no facebook, só a título de informação.

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    Quem me viu duas vezes e meia na vida já consegue perceber que orientação (e foco) não é o meu forte. Eu esqueço as coisas, eu esqueço nomes, eu esqueço a cara das pessoas, avalie se eu consigo lembrar nome de rua? Morei 23 anos em João Pessoa e invariavelmente confundia a Rui Carneiro com a Beira Rio (sempre culpei o fato de os dois nomes terem palavras começadas em R).

    Por este motivo, logo que me mudei, tomei a providência de conhecer os arredores da minha casa. Descobri farmácias, pet shops, lojinhas de 1,99 (importantíssimas), passei horas analisando o Google Maps e tentando extrair algum sentido das linhas de ônibus e dos nomes de bairros desconhecidos. 
    Andei bastante aqui por perto e numa bela manhã de sol decidi que estava pronta para encarar um novo desafio: pegar a bicicleta e ir até o parque da Redenção. Sozinha.

    Um pequeno passo para a humanidade, um passo gigante para um hobbit perdido.

    Então, decidida, enchi meu coraçãozinho de coragem e alonguei minhas perninhas sedentárias e fui.
    Eu devia ter percebido meu erro quando peguei o caminho errado logo na ida. 
    Saí de casa contando as ruas para pegar a 2ª a direita depois daquele sinal. Você não me pergunte como diabos eu consegui errar isso. Era só olhar pro sinal, contar um, dois e entrar na rua. Como é possível que um ser humano erre isso?

    Não sei.
    Sei que eu errei.

    Sorte que era só pegar a avenida em linha reta até dar uma dor. Aí você chegava no parque.
    Fiz isso. Quando cheguei, achei que minhas perninhas iam chamar um nome feio comigo e me abandonar lá mesmo. E acho que isso não aconteceu por muito pouco.

    Sei que dei umas voltas no parque, encontrei um pessoal que faz yoga por lá, dei umas esticadas e resolvi voltar pra casa. Eram umas 11h da manhã. Era outubro. O que significa que a primavera estava indo embora, já tinha um solzinho considerável no céu naquela hora.
    Peguei a bicicletinha e pensei: voltarei pelo caminho que vim. É mais longo, porém é mais fácil.

    Ah, esqueci de mencionar uma coisa importante:
    Sabe Deus qual motivo eu tive pra fazer uma estupidez dessa magnitude, mas quando eu saí de casa, eu achei por bem deixar a minha bolsa com a chave de casa e a carteira na portaria do prédio. Eu tinha pensado em dar só uma voltinha, na hora fez sentido não carregar nada além do celular comigo.
    Genial, não? Sou o orgulho da mamãe.



    Enfim, peguei o caminho que tinha vindo e não tinha pedalado nem um terço do trajeto quando percebi que o guidom da bicicleta não estava mais fazendo o seu trabalho. Algo aconteceu que o pneu da frente ia para onde queria e não para onde eu mandava ele ir. E adivinhem em que momento eu percebi isso?
    Exatamente, quando estava atravessando uma avenida.

    Naquele momento, eu pensei que ia morrer jovem sem nunca nem ter comido sushi no Japão.

    E foi por muito pouco.

    Quando consegui chegar na outra calçada puxando aquele monte de ferros inútil que quase me matou, foi que eu me dei conta da dimensão da minha desgraça. Lá estava eu, a pelo menos 40min de caminhada até a minha casa, numa cidade desconhecida, sem a chave da corrente da bicicleta pra amarrar ela em nenhum lugar e sem dinheiro pra pegar o ônibus.
    Percebi que minha única saída era caminhar até em casa sob o sol do meio dia empurrando uma bicicleta cujo pneu insistia em ir pra o lado mais errado possível, me puxando pra cima das pessoas ou pro meio da rua enquanto eu andava.

    Quase chorei.

    Depois de andar quase uma hora pingando de suor e com uma cara de pouquíssimos amigos, chego em casa.
    O porteiro abre a porta pra mim e percebe minha expressão sofrida, me devolve minha bolsa e pergunta o que houve:

    - A bicicleta quebrou. Vim andando praticamente da Redenção até aqui.
    - Bah!
    - Pois é.

    Pois é, moço.
    Eu não poderia definir melhor.


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