Rss Feed
  1. quinta-feira, 11 de setembro de 2014

    Morei aqui minha vida inteira. Me criei no calor, na praia, no meio dos "oxente", "vot", "vixi". No máximo, eu mudei de bairro duas vezes. Na primeira, mudaram comigo, pra ser bem exata. Eu devia ter uns 3 anos quando meus pais saíram do Bairro dos Estados pra Tambauzinho. Obviamente que eu não me lembro disso. Nem me lembro o que eu comi no café hoje, veja bem.

    A gente morou em Tambauzinho uns bons 10 anos e depois viemos pra cá, pro Bessa. E estamos aqui, há outros 10 anos tão bons quanto os primeiros. Essa é a minha experiência com mudanças. Pronto.

    E agora, aqui estou eu. Um metro e meio de pura distração e beleza (mainha que diz que eu sou uma linda), empacotando coisas pra me mandar pra outra ponta do país, em uma região onde existem não uma, não duas, mas QUATRO estações. E onde as pessoas chamam pão francês de cacetinho. Sério.

    É uma diferença gigantesca. 
    E eu só tenho um metro e meio.

    No dia 12 de agosto eu olhei pro calendário e pensei: "É agora, falta um mês exato". E de lá pra cá, eu fui sentindo a importância do passo que eu to dando.
    Faltavam quatro semanas e eu estava eufórica! Caramba, quatro semaninhas pra mudança! Eu não pensava em outra coisa. Falava disso sozinha o tempo todo e estava enlouquecidamente animada com tudo. Ah, tem tempo demais pra resolver tudo, eu pensava. E eu vou lidar muito bem. Vai ser tranquilo demais!

    Haha.

    Uma semana depois, uau. Passou bem rápido, né? Mas tudo bem, tem tempo. Eu vou dar conta de tudo, afinal, eu sou muito desenrolada, sei fazer uma mudança, qualquer pessoa sabe empacotar coisas e se mudar, que besteira.

    Haha.

    Faltando duas semanas, comecei a refletir que talveeeeez, mas só talveeeez, eu não seja assim tão boa em mudanças como eu achei que era.

    Animação, alegria, tudo isso continua dentro de mim. Mas foi nessa semana que eu comecei a me sentir gente. Tomei dimensão do tamanho da coisa. E sim, tive medo. Tenho ainda.
    Mas eu li em algum lugar, muito tempo atrás, que quando a gente não tem medo dos nossos planos, é porque eles não são grandes o bastante. E os meus planos são enormes pra mim, especialmente pra alguém tão pequena.

    Nessa última semana, eu encarei os problemas olhando no olho deles e pensando: É, vai ser aperriado.
    Eu podia me apavorar, eu podia me descabelar. Eu teria todo o direito de pirar. 
    Mas, olha, não sei explicar, tem alguma coisa dentro de mim que é muito forte. E vou te dizer, com a autoridade de alguém que me conhece muito bem, essa coisa não vem de mim. Chame do que quiser. Mas essa coisa é forte e não me deixa perder a coragem.

    Faltando duas semanas pra mudança, eu comecei a me despedir do pessoal. Comecei a arrumar os últimos documentos e burocracias, encaminhar meus trabalhos e a contar os dias usando um dígito só. Comecei a me despedir das pessoas e senti o peso disso. E fiz a coisa que eu acredito ser a mais sábia nessa situação: olhei esse peso e vivi ele. Senti toda dificuldade de olhar pras pessoas que eu amo e dizer: Tchau, a gente não vai mais viver perto.

    Sem usar palavras mais leves, sem enfatizar que "Ah, a gente tem internet, vamos manter sempre contato, vai ser tranquilo". Sim, isso é verdade. Namorei um bocado a distância, sou boa em manter aproximação mesmo com quilômetros entre eu e alguém. Mas é verdade também que vamos estar longe pra caramba de um jeito que nunca aconteceu antes e nós vamos sentir isso.

    E eu me permiti sentir tudo o que isso representa.
    E to aqui.

    To escrevendo isso pra dizer que sei o que to fazendo.
    Não me entenda mal, eu não tenho a ousadia de dizer que eu sei exatamente o que fazer e sou a pessoa mais preparada do mundo pra tirar de letra qualquer desafio que apareça.
    Não.
    Eu to dizendo que eu sei o tamanho do passo, e eu sei que vão ter dificuldades, e eu sei que vai ter muita coisa complicada pra cuidar.

    Mas eu sei também que eu quero muito isso!
    Quero viver essa aventura, quero andar esse caminho pisando em pedras e em gramado, olhando rosas e espinhos, correndo as vezes, andando as vezes, sob sol, sob chuva, no calor ou no frio.
    Eu quero essa experiência do jeito que ela é.

    Eu to feliz pra caramba com tudo isso.
    Mas to vivendo a tristeza desse momento também.
    E cada passo que eu der, eu quero que seja completo.

    Pra todo mundo que eu deixo aqui, eu deixo um pedaço de mim.
    Nessa cidade linda, e que só a gente que é daqui que pode reclamar (e reclamar com carinho, vamo admitir), fica um pedaço de mim.
    E na próxima cidade linda, onde um gaúcho e muitas aventuras me esperam, eu vou completa. Inteirinha. Porque esse é o lado legal de amar lugares e pessoas. A gente se divide sem se desmontar.

    Me desejem sorte, então. Que é hoje!


    |