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  1. segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

    Ela devia ter uns 4 ou 5 anos. Pra ficar mais claro, estava em uma idade em que todo mundo (os adultos, que pensam que são todo mundo) acha que não dá pra existir problemas. Brincando no chão da sala, perdida no meio de bonecas, carrinhos, peças de montar, pedaços de papel e lápis de cor, dentre outras coisinhas pequenas, quebradas e coloridas que continuavam servindo de brinquedo, ela não parecia mesmo ter nenhum problema na vida. 

    Mas de tempos em tempos, levantava os olhos da boneca e olhava pro corredor. Olhava pra a cozinha. Ouvia vozes falando. Voltava aos brinquedos. Então alguém passava pela sala e ela olhava, concentrada. E voltava a escolher cores nos lápis. Para aquela menininha, tão pequena, não era importante saber o que estava acontecendo no resto da casa. Mas era possível perceber. Uma sensação de peso, de que a mãe não estava com muita vontade de sentar e brincar com ela como costumava fazer em outros tempos, que alguma coisa tinha tirado essa vontade. Ela, do alto de seus 5 anos, no máximo, até pensava, olhando pra a boneca gasta de tanto brincar, que podia ter feito alguma coisa pra causar aquilo.

    Aquilo o que?

    Era uma sensação, não passava disso. Uma sensação que estava fora dela, que afetava as pessoas grandes daquela casa, e que ela, mesmo tão nova, sentia também. Sentia e sofria, quieta, no seu cantinho entulhado de papel. Sabe-se lá o motivo, mas a mãe estava triste. Sabe-se lá a quanto tempo. Mas agora não queria brincar. Ela chamava, mas a mãe devolvia um sorriso apagado, um carinho na cabeça e a resposta de que estava cansada, ou ocupada, e quem sabe depois? Ou até sentava, mexia em algumas coisas, montava algumas peças, desenhava algumas casinhas e saía.

    Voltava aos brinquedos pensando como alguém poderia não querer sentar no meio de todas aquelas coisas tão coloridas e mexer em todas elas. Não fazia sentido algum, como não fazia sentido a maioria das coisas que as pessoas adultas faziam da vida. Por exemplo: por que a mãe calçava um sapato que doía no pé? Calçava e reclamava e reclamava. Devia tirar, era o que a menina pensava. E por que o pai sentava na frente do computador e começava a ler coisas, fazia caras sérias, caretas e dava suspiros cansados, que diziam claramente que não estava se divertindo? Devia desligar aquela coisa. Ou por que a irmã corria pra atender o telefone, passava um tempão agarrada nele, falando baixinho, de cara séria, e depois saía chorando, tantas vezes? Não fazia sentido.

    As pessoas adultas não faziam sentido. Ficavam tristes com coisas estranhas, e ela nunca entendia os motivos. Mas sentia. Sentia muito e muitas vezes até se culpava. E desistia de se forçar a entender. Pensava todas essas coisas enquanto desenhava, escolhia cores, mexia nos brinquedos. As pessoas grandes precisavam de alguma coisa para melhorar. 
    Levantou daquele canto da sala com o papel na mão. Encontrou a mãe no quarto, com aquela cara séria que estava desde cedo. Tocou nela e entregou o desenho:
    - Oi, meu amor... O que é isso que você desenhou aqui?
    - Tem dois copos. Um de remédio, pra você ficar boa se tiver com dor. E um de suco pra tirar o gosto ruim do remédio. E tem uma flor, porque é bonita, tem muitas cores, e aí você fica feliz, ta bom? E tem um sorriso, bem feliz. É um sorriso pra você. 



    Com 4 ou 5 anos, as coisas doem também, mas são mais simples de resolver. Há quem diga que um desenho não resolve nada. Mas a mãe sorriu, mesmo com água nos olhos. E a menina ganhou um abraço, muito forte, muito longo. E nesse meio tempo, tudo ficou bem.

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