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  1. sábado, 29 de dezembro de 2012

    Eu tenho um medo do futuro que você não avalia.
    E tenho certeza que não sou a única.

    Olho pra frente, pros dias que eu ainda tenho pra correr, e tenho medo. E tenho mais medo ainda desse medo. Calma, eu explico. Tenho um jeito meio bobo de viver a vida. E digo bobo não como um xingamento (sério). Bobo porque passo a maior parte do meu tempo lidando com o que me aparece de complicado e aproveitando o que surge de bom. Cumprindo obrigações e aproveitando folgas. E me assustando com o futuro, do nada, de súbito, como se fosse alguma coisa que aparecesse de repente na sua frente.

    E não é. 
    O meu futuro está aí. Batendo na minha porta todos os dias, sendo construído a cada passo. E isso vai se tornando uma coisa tão natural que eu esqueço de ter medo dele. Mas quando lembro, sinto frio na barriga. Aquele medo de estar dando o passo errado. De que o passo que eu estou dando não seja longo o bastante, forte o bastante, firme o bastante. 
    Isso gela a barriga e dá dor de cabeça. Até eu esquecer do futuro de novo.

    Eu tenho planos, muitos planos. Mas, orgulhosamente, afirmo ter idade e experiências (mínimas, porém) suficientes pra saber que os planos que a gente faz são frágeis como nuvens, que mudam com o vento e a gente nunca sabe que forma vão tomar. E como as nuvens, cada um vê nelas o que quer. É certo que a gente colhe o que planta, mas o que a gente vai colher vai depender também das chuvas, do sol, das aves e tudo mais, pra poder crescer forte ou fraco.

    E eu tenho um medo arretado das coisas que eu não posso controlar. Mas só quando me lembro delas. 
    Eu disse que eu sou boba.

    Eu sei que to escrevendo coisas soltas e sem sentido, mas são quase 1h da manhã e eu to agitada demais pra dormir. E como gente com insônia, atacada e com acesso a internet sempre dá merda, eu to aqui escrevendo pra me acalmar.

    Quando eu tinha, sei lá, uns 8 ou 9 anos, eu acho, eu resolvi que ia tentar construir um castelinho de cartas, igual eu vi a Mônica fazer no gibi. Na minha cabecinha infantil, se a Mônica consegue, obviamente eu consigo. 
    Vale citar que eu dormia com um Sansão de pelúcia que eu tinha, certa de que qualquer monstro que resolvesse me atacar iria ver o coelho e ir embora, porque é claro que a fama do coelho da Mônica era conhecida nos quatro cantos do mundo e dos submundos onde os monstros viviam, e ninguém ia se atrever a conferir que eu não era a baixinha e gordinha, e sim, baixinha e magrela.
    Voltando às cartas.

    Eu tentei. Tentei horrores. Tentei como se minha vida dependesse daquilo. Com toda a concentração do mundo, e aposto que perdi alguns neurônios de tanto esforço. No máximo, consegui juntar umas quatro ou seis cartas. Elas sempre caíam. 
    O vento, um barulho que me assustava, a minha mão que tremia, a irmã mais nova (a monstrinha devia ter uns 2 ou 3 anos) que queria participar do que quer que estivesse acontecendo ali... Tudo derrubava meu castelinho.
    E eu fiquei frustrada de verdade. Não porque eu não consegui. Mas porque a maioria dos motivos pelos quais o castelo caiu eram coisas externas a mim, que eu não podia evitar.

    É disso que eu tenho medo. Não tenho tanto medo assim de mim (até tenho, mas isso é assunto pra outro dia). Tenho mais medo ainda das coisas que eu não controlo. Porque por mais que eu me esforce pra algo, alguma coisa externa sempre pode aparecer.

    Mas como eu disse antes, eu sou uma boba. E isso acaba sendo uma vantagem. Porque depois de escrever tudo isso, eu já me sinto mais inclinada a aceitar que as coisas são assim, e a gente só tem que aprender a nadar entre as pedras. 
    E eu tenho medo de muitas coisas.
    Mas não tenho medo de nadar.


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  2. segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

    Ela devia ter uns 4 ou 5 anos. Pra ficar mais claro, estava em uma idade em que todo mundo (os adultos, que pensam que são todo mundo) acha que não dá pra existir problemas. Brincando no chão da sala, perdida no meio de bonecas, carrinhos, peças de montar, pedaços de papel e lápis de cor, dentre outras coisinhas pequenas, quebradas e coloridas que continuavam servindo de brinquedo, ela não parecia mesmo ter nenhum problema na vida. 

    Mas de tempos em tempos, levantava os olhos da boneca e olhava pro corredor. Olhava pra a cozinha. Ouvia vozes falando. Voltava aos brinquedos. Então alguém passava pela sala e ela olhava, concentrada. E voltava a escolher cores nos lápis. Para aquela menininha, tão pequena, não era importante saber o que estava acontecendo no resto da casa. Mas era possível perceber. Uma sensação de peso, de que a mãe não estava com muita vontade de sentar e brincar com ela como costumava fazer em outros tempos, que alguma coisa tinha tirado essa vontade. Ela, do alto de seus 5 anos, no máximo, até pensava, olhando pra a boneca gasta de tanto brincar, que podia ter feito alguma coisa pra causar aquilo.

    Aquilo o que?

    Era uma sensação, não passava disso. Uma sensação que estava fora dela, que afetava as pessoas grandes daquela casa, e que ela, mesmo tão nova, sentia também. Sentia e sofria, quieta, no seu cantinho entulhado de papel. Sabe-se lá o motivo, mas a mãe estava triste. Sabe-se lá a quanto tempo. Mas agora não queria brincar. Ela chamava, mas a mãe devolvia um sorriso apagado, um carinho na cabeça e a resposta de que estava cansada, ou ocupada, e quem sabe depois? Ou até sentava, mexia em algumas coisas, montava algumas peças, desenhava algumas casinhas e saía.

    Voltava aos brinquedos pensando como alguém poderia não querer sentar no meio de todas aquelas coisas tão coloridas e mexer em todas elas. Não fazia sentido algum, como não fazia sentido a maioria das coisas que as pessoas adultas faziam da vida. Por exemplo: por que a mãe calçava um sapato que doía no pé? Calçava e reclamava e reclamava. Devia tirar, era o que a menina pensava. E por que o pai sentava na frente do computador e começava a ler coisas, fazia caras sérias, caretas e dava suspiros cansados, que diziam claramente que não estava se divertindo? Devia desligar aquela coisa. Ou por que a irmã corria pra atender o telefone, passava um tempão agarrada nele, falando baixinho, de cara séria, e depois saía chorando, tantas vezes? Não fazia sentido.

    As pessoas adultas não faziam sentido. Ficavam tristes com coisas estranhas, e ela nunca entendia os motivos. Mas sentia. Sentia muito e muitas vezes até se culpava. E desistia de se forçar a entender. Pensava todas essas coisas enquanto desenhava, escolhia cores, mexia nos brinquedos. As pessoas grandes precisavam de alguma coisa para melhorar. 
    Levantou daquele canto da sala com o papel na mão. Encontrou a mãe no quarto, com aquela cara séria que estava desde cedo. Tocou nela e entregou o desenho:
    - Oi, meu amor... O que é isso que você desenhou aqui?
    - Tem dois copos. Um de remédio, pra você ficar boa se tiver com dor. E um de suco pra tirar o gosto ruim do remédio. E tem uma flor, porque é bonita, tem muitas cores, e aí você fica feliz, ta bom? E tem um sorriso, bem feliz. É um sorriso pra você. 



    Com 4 ou 5 anos, as coisas doem também, mas são mais simples de resolver. Há quem diga que um desenho não resolve nada. Mas a mãe sorriu, mesmo com água nos olhos. E a menina ganhou um abraço, muito forte, muito longo. E nesse meio tempo, tudo ficou bem.

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