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sábado, 25 de fevereiro de 2012

O passarinho azul que não é o twitter.

           Era uma vez um passarinho azul, que morava dentro de uma gaiola. Essa gaiola ficava na casa de um homem de seus 60 e poucos anos. Ou mais. Esse homem tinha encontrado o tal passarinho azul no seu jardim há algum tempo atrás. O passarinho azul era pequeno e estava muito machucado. Sabe-se lá o que tinha acontecido com ele. Caiu do ninho, foi machucado por outro bicho, qualquer coisa do tipo. Então o homem pegou o passarinho e levou pra casa, cuidou dele, deu comida e água, até ele sarar.
           O passarinho já morava naquela gaiola há algum tempo. Não era uma gaiola muito grande. Cabia o passarinho. Era uma gaiola de tamanho suficiente para um passarinho viver em paz. Mas aquele não vivia. Vivia olhando o quintal do homem, as árvores e os outros passarinhos voando e cantando no muro e nos galhos das plantas. Olhava morrendo de vontade de sair, de voar, de ver o que tinha mais pra lá do muro.
           Era grato ao homem que tinha cuidado dele, de seus machucados, de suas asinhas e tudo mais. Que tinha alimentado e limpado a gaiola, fazendo o passarinho ficar mais forte e brilhante e azul e pronto pra voar. Era isso que ele queria. Voar muito e longe e escolher uma boa árvore e fazer um ninho, e enjoar dele e fazer outro, e olhar os outros passarinhos e tudo o mais que tivesse pra se olhar depois do muro. O que será que tinha depois do muro? O passarinho mal sabia. Lembrava muito pouco, sabia de muito pouco e isso deixava o passarinho azul ainda mais enlouquecido pra sair dali.
           Todos os dias o homem vinha e colocava comida e água limpa pra ele. Limpava sua gaiola de tempos em tempos. As vezes ficava apenas lá, no quintal, olhando o tempo passar. E o passarinho olhava pra ele, pensava como seria bom poder dizer aquele homem que estava feliz por ele ter cuidado dele todo esse tempo, desde que o passarinho se lembrava, mas pedir a ele pra deixar ele ir voar lá fora. Não podia pedir. E se pudesse, ele pensou, não pediria. O homem fez tanto por ele todo esse tempo. Como teria coragem de virar as costas e abandoná-lo? Isso seria muita ingratidão. Mas o passarinho queria tanto voar...
           Uma tarde, o homem trouxe sua cadeira, colocou no quintal, perto da gaiola, como fazia de vez em quando, e se sentou, com uma bacia de pipocas no colo. Ficou olhando o quintal, as árvores e os outros passarinhos voando, e de vez em quando cantava um pedaço de uma música que, pelo jeito, estava tocando na sua cabeça. O passarinho, vez por outra, cantava sua própria música um pouquinho. O homem olhava pra ele e sorria. O passarinho se sentia mal por querer ir embora. Mas a vontade ainda estava lá. E quanto mais o homem sorria, mais aquela coisa se agitava dentro do pequeno passarinho azul cheio de ideias doidas. E o passarinho, tentando aliviar a bagunça da sua cabeça, resolveu se mexer na gaiola, de um poleiro pro outro. Mas não passava. E ele pulava mais, e para as grades da gaiola. Mas não passava. E ele se agitava e tentou voar ali dentro. E nessa agonia maluca do passarinho, a gaiola balançou um pouco e a portinha se abriu.
           O passarinho parou. Olhou a portinha da gaiola aberta. A chance de sair, de fugir e voar até cansar de voar, ali, na sua frente! O passarinho estava tão chocado com a possibilidade que não voou. Olhou o homem olhando pra ele. Seria ingrato a esse ponto? O passarinho pulou para a grade da portinha, tentando controlar a vontade de voar lá fora. Era muita agitação pra um passarinho tão pequeno! O homem olhou pra ele e estendeu o braço, com uma pipoca na ponta dos dedos. O passarinho voou até ele, pousou em sua mão e pegou a pipoca. Pela primeira vez ali fora, olhando tudo ser ver grades no meio do caminho, o passarinho estava absurdamente feliz. Mas não entendia o homem e o seu gesto estranho. O homem olhou pra ele, sorriu e disse:
           - Ela sempre esteve aberta. Eu pensei que você nunca ia tentar sair.
          O passarinho voou pra longe.
         Voltou a pousar naquele quintal muitas vezes. O homem nunca sabia se aquele era um passarinho azul ou o seu passarinho azul. Mas sempre que via um passarinho azul voando livre, ficava feliz e lembrava do seu passarinho azul voando por aí. E sempre que via um passarinho azul numa gaiola, lembrava do seu passarinho azul, bobo, que podia ter ido embora assim que melhorasse e ficasse forte o bastante. Mas nunca tentou.


Favor ignorar meu passarinho feio, que foi desenhado pra eu não esquecer da ideia da história.

1 comentários:

AlexGoblin disse...

Lugar de passarinho nunca é na gaiola! Todo passarinho nasceu pra voar livre!

Adorei, meu anjo! Continue escrevendo que eu continuo lendo e vou continuar adorando. =*