Era uma vez um
passarinho azul, que morava dentro de uma gaiola. Essa gaiola ficava
na casa de um homem de seus 60 e poucos anos. Ou mais. Esse homem
tinha encontrado o tal passarinho azul no seu jardim há algum tempo
atrás. O passarinho azul era pequeno e estava muito machucado.
Sabe-se lá o que tinha acontecido com ele. Caiu do ninho, foi
machucado por outro bicho, qualquer coisa do tipo. Então o homem
pegou o passarinho e levou pra casa, cuidou dele, deu comida e água,
até ele sarar.
O passarinho já
morava naquela gaiola há algum tempo. Não era uma gaiola muito
grande. Cabia o passarinho. Era uma gaiola de tamanho suficiente para
um passarinho viver em paz. Mas aquele não vivia. Vivia olhando o
quintal do homem, as árvores e os outros passarinhos voando e
cantando no muro e nos galhos das plantas. Olhava morrendo de vontade
de sair, de voar, de ver o que tinha mais pra lá do muro.
Era grato ao homem que
tinha cuidado dele, de seus machucados, de suas asinhas e tudo mais.
Que tinha alimentado e limpado a gaiola, fazendo o passarinho ficar
mais forte e brilhante e azul e pronto pra voar. Era isso que ele
queria. Voar muito e longe e escolher uma boa árvore e fazer um
ninho, e enjoar dele e fazer outro, e olhar os outros passarinhos e
tudo o mais que tivesse pra se olhar depois do muro. O que será que
tinha depois do muro? O passarinho mal sabia. Lembrava muito pouco,
sabia de muito pouco e isso deixava o passarinho azul ainda mais
enlouquecido pra sair dali.
Todos os dias o homem
vinha e colocava comida e água limpa pra ele. Limpava sua gaiola de
tempos em tempos. As vezes ficava apenas lá, no quintal, olhando o
tempo passar. E o passarinho olhava pra ele, pensava como seria bom
poder dizer aquele homem que estava feliz por ele ter cuidado dele
todo esse tempo, desde que o passarinho se lembrava, mas pedir a ele
pra deixar ele ir voar lá fora. Não podia pedir. E se pudesse, ele
pensou, não pediria. O homem fez tanto por ele todo esse tempo. Como
teria coragem de virar as costas e abandoná-lo? Isso seria muita
ingratidão. Mas o passarinho queria tanto voar...
Uma tarde, o homem
trouxe sua cadeira, colocou no quintal, perto da gaiola, como fazia
de vez em quando, e se sentou, com uma bacia de pipocas no colo.
Ficou olhando o quintal, as árvores e os outros passarinhos voando,
e de vez em quando cantava um pedaço de uma música que, pelo jeito,
estava tocando na sua cabeça. O passarinho, vez por outra, cantava
sua própria música um pouquinho. O homem olhava pra ele e sorria. O
passarinho se sentia mal por querer ir embora. Mas a vontade ainda
estava lá. E quanto mais o homem sorria, mais aquela coisa se
agitava dentro do pequeno passarinho azul cheio de ideias doidas. E o
passarinho, tentando aliviar a bagunça da sua cabeça, resolveu se
mexer na gaiola, de um poleiro pro outro. Mas não passava. E ele
pulava mais, e para as grades da gaiola. Mas não passava. E ele se
agitava e tentou voar ali dentro. E nessa agonia maluca do
passarinho, a gaiola balançou um pouco e a portinha se abriu.
O passarinho parou.
Olhou a portinha da gaiola aberta. A chance de sair, de fugir e voar
até cansar de voar, ali, na sua frente! O passarinho estava tão
chocado com a possibilidade que não voou. Olhou o homem olhando pra
ele. Seria ingrato a esse ponto? O passarinho pulou para a grade da
portinha, tentando controlar a vontade de voar lá fora. Era muita
agitação pra um passarinho tão pequeno! O homem olhou pra ele e
estendeu o braço, com uma pipoca na ponta dos dedos. O passarinho
voou até ele, pousou em sua mão e pegou a pipoca. Pela primeira vez
ali fora, olhando tudo ser ver grades no meio do caminho, o
passarinho estava absurdamente feliz. Mas não entendia o homem e o
seu gesto estranho. O homem olhou pra ele, sorriu e disse:
- Ela sempre esteve
aberta. Eu pensei que você nunca ia tentar sair.
O passarinho voou pra
longe.
Voltou a pousar
naquele quintal muitas vezes. O homem nunca sabia se aquele era um
passarinho azul ou o seu passarinho azul. Mas sempre que via um
passarinho azul voando livre, ficava feliz e lembrava do seu
passarinho azul voando por aí. E sempre que via um passarinho azul
numa gaiola, lembrava do seu passarinho azul, bobo, que podia ter ido
embora assim que melhorasse e ficasse forte o bastante. Mas nunca
tentou.
Favor ignorar meu passarinho feio, que foi desenhado pra eu não esquecer da ideia da história.



1 comentários:
Lugar de passarinho nunca é na gaiola! Todo passarinho nasceu pra voar livre!
Adorei, meu anjo! Continue escrevendo que eu continuo lendo e vou continuar adorando. =*
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