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  1. sábado, 29 de dezembro de 2012

    Eu tenho um medo do futuro que você não avalia.
    E tenho certeza que não sou a única.

    Olho pra frente, pros dias que eu ainda tenho pra correr, e tenho medo. E tenho mais medo ainda desse medo. Calma, eu explico. Tenho um jeito meio bobo de viver a vida. E digo bobo não como um xingamento (sério). Bobo porque passo a maior parte do meu tempo lidando com o que me aparece de complicado e aproveitando o que surge de bom. Cumprindo obrigações e aproveitando folgas. E me assustando com o futuro, do nada, de súbito, como se fosse alguma coisa que aparecesse de repente na sua frente.

    E não é. 
    O meu futuro está aí. Batendo na minha porta todos os dias, sendo construído a cada passo. E isso vai se tornando uma coisa tão natural que eu esqueço de ter medo dele. Mas quando lembro, sinto frio na barriga. Aquele medo de estar dando o passo errado. De que o passo que eu estou dando não seja longo o bastante, forte o bastante, firme o bastante. 
    Isso gela a barriga e dá dor de cabeça. Até eu esquecer do futuro de novo.

    Eu tenho planos, muitos planos. Mas, orgulhosamente, afirmo ter idade e experiências (mínimas, porém) suficientes pra saber que os planos que a gente faz são frágeis como nuvens, que mudam com o vento e a gente nunca sabe que forma vão tomar. E como as nuvens, cada um vê nelas o que quer. É certo que a gente colhe o que planta, mas o que a gente vai colher vai depender também das chuvas, do sol, das aves e tudo mais, pra poder crescer forte ou fraco.

    E eu tenho um medo arretado das coisas que eu não posso controlar. Mas só quando me lembro delas. 
    Eu disse que eu sou boba.

    Eu sei que to escrevendo coisas soltas e sem sentido, mas são quase 1h da manhã e eu to agitada demais pra dormir. E como gente com insônia, atacada e com acesso a internet sempre dá merda, eu to aqui escrevendo pra me acalmar.

    Quando eu tinha, sei lá, uns 8 ou 9 anos, eu acho, eu resolvi que ia tentar construir um castelinho de cartas, igual eu vi a Mônica fazer no gibi. Na minha cabecinha infantil, se a Mônica consegue, obviamente eu consigo. 
    Vale citar que eu dormia com um Sansão de pelúcia que eu tinha, certa de que qualquer monstro que resolvesse me atacar iria ver o coelho e ir embora, porque é claro que a fama do coelho da Mônica era conhecida nos quatro cantos do mundo e dos submundos onde os monstros viviam, e ninguém ia se atrever a conferir que eu não era a baixinha e gordinha, e sim, baixinha e magrela.
    Voltando às cartas.

    Eu tentei. Tentei horrores. Tentei como se minha vida dependesse daquilo. Com toda a concentração do mundo, e aposto que perdi alguns neurônios de tanto esforço. No máximo, consegui juntar umas quatro ou seis cartas. Elas sempre caíam. 
    O vento, um barulho que me assustava, a minha mão que tremia, a irmã mais nova (a monstrinha devia ter uns 2 ou 3 anos) que queria participar do que quer que estivesse acontecendo ali... Tudo derrubava meu castelinho.
    E eu fiquei frustrada de verdade. Não porque eu não consegui. Mas porque a maioria dos motivos pelos quais o castelo caiu eram coisas externas a mim, que eu não podia evitar.

    É disso que eu tenho medo. Não tenho tanto medo assim de mim (até tenho, mas isso é assunto pra outro dia). Tenho mais medo ainda das coisas que eu não controlo. Porque por mais que eu me esforce pra algo, alguma coisa externa sempre pode aparecer.

    Mas como eu disse antes, eu sou uma boba. E isso acaba sendo uma vantagem. Porque depois de escrever tudo isso, eu já me sinto mais inclinada a aceitar que as coisas são assim, e a gente só tem que aprender a nadar entre as pedras. 
    E eu tenho medo de muitas coisas.
    Mas não tenho medo de nadar.


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  2. segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

    Ela devia ter uns 4 ou 5 anos. Pra ficar mais claro, estava em uma idade em que todo mundo (os adultos, que pensam que são todo mundo) acha que não dá pra existir problemas. Brincando no chão da sala, perdida no meio de bonecas, carrinhos, peças de montar, pedaços de papel e lápis de cor, dentre outras coisinhas pequenas, quebradas e coloridas que continuavam servindo de brinquedo, ela não parecia mesmo ter nenhum problema na vida. 

    Mas de tempos em tempos, levantava os olhos da boneca e olhava pro corredor. Olhava pra a cozinha. Ouvia vozes falando. Voltava aos brinquedos. Então alguém passava pela sala e ela olhava, concentrada. E voltava a escolher cores nos lápis. Para aquela menininha, tão pequena, não era importante saber o que estava acontecendo no resto da casa. Mas era possível perceber. Uma sensação de peso, de que a mãe não estava com muita vontade de sentar e brincar com ela como costumava fazer em outros tempos, que alguma coisa tinha tirado essa vontade. Ela, do alto de seus 5 anos, no máximo, até pensava, olhando pra a boneca gasta de tanto brincar, que podia ter feito alguma coisa pra causar aquilo.

    Aquilo o que?

    Era uma sensação, não passava disso. Uma sensação que estava fora dela, que afetava as pessoas grandes daquela casa, e que ela, mesmo tão nova, sentia também. Sentia e sofria, quieta, no seu cantinho entulhado de papel. Sabe-se lá o motivo, mas a mãe estava triste. Sabe-se lá a quanto tempo. Mas agora não queria brincar. Ela chamava, mas a mãe devolvia um sorriso apagado, um carinho na cabeça e a resposta de que estava cansada, ou ocupada, e quem sabe depois? Ou até sentava, mexia em algumas coisas, montava algumas peças, desenhava algumas casinhas e saía.

    Voltava aos brinquedos pensando como alguém poderia não querer sentar no meio de todas aquelas coisas tão coloridas e mexer em todas elas. Não fazia sentido algum, como não fazia sentido a maioria das coisas que as pessoas adultas faziam da vida. Por exemplo: por que a mãe calçava um sapato que doía no pé? Calçava e reclamava e reclamava. Devia tirar, era o que a menina pensava. E por que o pai sentava na frente do computador e começava a ler coisas, fazia caras sérias, caretas e dava suspiros cansados, que diziam claramente que não estava se divertindo? Devia desligar aquela coisa. Ou por que a irmã corria pra atender o telefone, passava um tempão agarrada nele, falando baixinho, de cara séria, e depois saía chorando, tantas vezes? Não fazia sentido.

    As pessoas adultas não faziam sentido. Ficavam tristes com coisas estranhas, e ela nunca entendia os motivos. Mas sentia. Sentia muito e muitas vezes até se culpava. E desistia de se forçar a entender. Pensava todas essas coisas enquanto desenhava, escolhia cores, mexia nos brinquedos. As pessoas grandes precisavam de alguma coisa para melhorar. 
    Levantou daquele canto da sala com o papel na mão. Encontrou a mãe no quarto, com aquela cara séria que estava desde cedo. Tocou nela e entregou o desenho:
    - Oi, meu amor... O que é isso que você desenhou aqui?
    - Tem dois copos. Um de remédio, pra você ficar boa se tiver com dor. E um de suco pra tirar o gosto ruim do remédio. E tem uma flor, porque é bonita, tem muitas cores, e aí você fica feliz, ta bom? E tem um sorriso, bem feliz. É um sorriso pra você. 



    Com 4 ou 5 anos, as coisas doem também, mas são mais simples de resolver. Há quem diga que um desenho não resolve nada. Mas a mãe sorriu, mesmo com água nos olhos. E a menina ganhou um abraço, muito forte, muito longo. E nesse meio tempo, tudo ficou bem.

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  3. quinta-feira, 25 de outubro de 2012

    A noite estava sendo longa. Eram umas 3h da madrugada e ele continuava fitando o teto, decorando as marcas, os cantos mais ou menos escuros, contando as aranhas e pensando como precisava limpar aquilo ali. Se virava na cama devagar e olhava a parede bem de perto, tocando nela, depois olhando os próprios dedos. Olhou por cima do ombro e viu a respiração que vinha seguindo seu ritmo e servindo de fundo musical para aquela insônia.

    Pensar em qualquer coisa era melhor do que pensar em si, porque precisava fazer silêncio para não atrapalhar aquele ritmo e cortar aquele sono tão tranquilo e merecido. Ela merecia mesmo. Se virou outra vez, ainda mais devagar e voltou ao teto. Pensou em três ou quatro nomes e pediu, com força, que tivessem o que mereciam: um sono tranquilo. 

    Então olhou para si. Os olhos encheram de água. Ninguém vê nada de bom em si mesmo no meio da noite. Nada além de erros, de faltas, de males que não se sabe quem causou. Mas, às 3h da manhã, a culpa é sempre de quem está acordado, remoendo o assunto. Nada além de um nó na garganta, que deixa difícil respirar, ou um aperto por dentro, que dói de verdade, como um machucado. Cada um com seus erros, cada um com suas dores, carregando sua cruz. Ele escolheu a madrugada, interrompendo o próprio sono para pensar. E pensava suas escolhas, repensava sua vida, profissional, pessoal. Lembrava da família, longe. E as oportunidades perdidas que não voltavam mais. E ainda aqueles pensamentos acerca do próprio caráter, que vêm completamente contra a vontade e trazem o reconhecimento de que ninguém é tão bom quanto parece à luz do dia.

    Olhou para o lado, para o corpo que se movia lentamente, de um jeito tranquilo, que confortava sem saber. Aquela respiração que fazia com que cada erro parecesse menor. E cada falta não parecia mais tanta falta. As culpas passavam a ser dividas por entre os muitos personagens de todas as histórias. E cada inspirar e expirar dizia que ele não podia ser tão ruim, ou ela não estaria ali. E é por ela que ele seria melhor. O melhor que pudesse. Abraçou aquele corpo com cuidado e foi seguindo o ritmo daquela respiração sossegada. E dormiu. Porque, no final, ele sabia que também merecia.




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    Eu sabia que um dia ia voltar com o blog. Passei umas boas eras sem pisar aqui. Aliás, sem postar. Porque só Deus sabe quantas vezes abri essa página e escrevi mil vezes um primeiro parágrafo. E mil vezes apaguei tudo de novo. Cheguei mesmo a pensar que não conseguia mais escrever. Ou pelo menos não conseguia mais gostar do que escrevia.

    Uma coisa é certa: eu nunca quis fazer do meu blog uma obrigação, uma coisa forçada, que eu tinha que fazer mesmo quando estava cansada, sem saco, com ódio da vida, do universo e de tudo mais. Mas nunca quis largar isso aqui. Porque sempre foi minha terapia.

    E agora eu to tentando voltar. A falta de tempo causada pela universidade é o menor dos meus problemas. Eu to torcendo é contra a falta de inspiração. Ou a falta de tolerância com meus textos. Whatever.

    Enfim.
    Oi de novo.

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  4. sexta-feira, 20 de abril de 2012

    Tem uma coisa que me deixa muito cismada.
    Quando eu to na rua, principalmente com fone de ouvido, eu viajo muito. Começo a pensar alguma coisa estúpida, a imaginar uma situação ou lembrar de alguma coisa, ou ter alguma ideia. Fico pensando quantos segundos eu sobreviveria no apocalipse zumbi (poucos), se eu conseguiria aprender japonês (não), se eu teria coragem de pular de paraquedas e se a minha mãe sobreviveria a essa ideia (não) e qualquer outro tipo de baboseira.

    As vezes, eu acabo tendo ideia pra alguma história e planejo ela na minha cabeça. Fico escolhendo palavras (mesmo que não lembre de mais nada depois) e é aí que eu me preocupo. Já repetiu uma palavra um monte de vezes até ela começar a soar estranha? Pronto. Eu começo a repetir ela na minha cabeça, até ficar esquisito. Aí eu quero repetir ela em voz alta, pra conferir se aquela macumba vinda sabe Deus de onde continua funcionando. Mas eu to na rua. Devia me conter. Eu sei disso. Mas meu cérebro troll não se importa.

    É, eu já saí na rua repetindo uma palavra em voz alta.
    Quando percebi, quase explodi de tanta vergonha.
    Eu devia parecer uma pessoa perturbada, andando na rua com fones de ouvido e repetindo, sei lá, "pipoca, pipoca, pipoca" loucamente, aos sussurros.

    Meu Deus, que coisa assustadora...

    Enfim. Depois disso acontecer umas duas ou três vezes, eu comecei a ficar muito cismada. Então, sempre que eu me empolgo pensando alguma coisa, eu sempre me assusto comigo e fico pensando: "Ai Deus, não deixa eu ter ficado falando sozinha em voz alta dentro desse ônibus, pelo amor das criancinhas!".

    Por isso, quando eu vi aquela mulher empolgada com seus fones de ouvido, eu meio que compreendi.

    Eu entrei no ônibus, muito atrasada pra aula, e nem pensei onde iria sentar. Só sentei. Do lado de uma moça, de seus 30 anos, muito alta, carregando mochila e pasta no colo. E fones de ouvido.
    Ok, normal.
    A música tava meio alta no fone dela. Eu sei disso porque eu tava ouvindo música também, mas quando um dos meus fones caiu um minuto, eu ouvi o ruído da música dela.
    A moça tava feliz da vida com sua música, seja ela qual fosse. Ficava balançando a cabeça e sorrindo. Bonitinho, até. Engraçadinho de um jeito meio esquisito. Nada demais. Continuei na minha.
    Ela parecia o Jim Carrey naquele video do "What is Love?"



    Mas ela não se conteve.
    Não, não. Sorrir e balançar a cabeça não era o suficiente para o nível de alegria daquela mulher. Aquilo dentro dela precisava sair (soou nojento). Ela começou a balançar o corpo. Eu tava concentrada no meu  fone, mas reparei quando ela começou a me empurrar enquanto balançava. Olhei pra a mulher, com o meu melhor olhar de "Que é isso, dona?". Mas ela nem se abalou, de olhos fechados, balançando a cabeça e o corpo, me dando pequenos escorões dentro do ônibus.

    Olha, eu sou esquisita. Eu faço esquisitices em público e me contorço de vergonha quando percebo. Mas eu não fico agredindo as pessoas com a minha felicidade, gente!
    Eu tava atrasada. Caramba, eram 10 pras 8. Minha aula começava às 8h. O ônibus ainda ia levar uma boa meia hora pra chegar na universidade.
    OITO HORAS DA MANHÃ, e a mulher dançante do ônibus me dando tecos.
    Eu só tenho um metro e meio, mal ocupo uma cadeira inteira no ônibus. A mulher precisa ficar invadindo meu mísero espaço e me agredindo daquela forma?

    Eu mereço.

    Aí você pensa:
    "Não, a essa hora da manhã, já deu, né?"
    HAHAHAHA, claro...

    A moça continuava feliz demais. Me empurrar não era o bastante. Não, ela estava feliz demais, meros empurrões não eram suficientes!
    Ela resolveu cantar.
    Começou baixinho, só uns ruídos, uns sussurros. Seria assustador se ela não tivesse dançando junto. Como ela dançava, ficou só tosco mesmo. Foi aumentando o barulho, até ficar qualquer coisa parecida com um latido com um certo ritmo.

    Como se a cena não fosse estranha o suficiente, a moça alternava momentos em que cantava mais alto, com momentos em que dançava. Mas dançava mesmo. Dançava balançando os braços, fazendo ondinhas com os dedos, passando os braços na frente do rosto e tudo mais.
    Era impossível não parar o que quer que você estivesse fazendo pra olhar pra aquela moça com uma cara chocada e surpresa. Eu não era a única fazendo isso. Metade das pessoas ao nosso redor tavam olhando pra ela, tentando compreender aquilo.

    O meu medo era que ela resolvesse que aquilo não era o bastante pra tanta alegria e saísse se pendurando naqueles ferros do ônibus, fazendo pole dance e cantando I will survive, ou coisa parecida.
    Acho que nem o ônibus ia ser suficiente pra tanta felicidade. Ela ia sair pela rua dançando e parando o trânsito, dançando aquela dancinha assustadora por toda parte, deixando todas as pessoas do mundo chocadas e rindo durante o resto do dia.

    É, rindo dela.
    Mas quem se importa?
    A maluquinha dançante tava feliz.
    Deixa ela, então!

    :)



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  5. domingo, 8 de abril de 2012

    Faz você parar de fazer um trabalho que tem que entregar amanhã às 8h e ainda não tá nem na metade. Porque você olha o texto e não enxerga as palavras. Lê uma página e não lembra de nada. Porque tá vendo tudo vermelho.
    Quando você tem raiva e engole, tranca e guarda, você treme. Aí fecha o olho, respira, conta até 10. Mas não consegue porque fica difícil até mesmo controlar a respiração. Raiva de quê? É difícil até dizer.

    Antes eu não tremia de raiva.
    Eu gritava, mordia alguma coisa (o travesseiro, normalmente) até os meus dentes doerem. Dava murro no colchão e enfiava a cara no já citado travesseiro e deixava ele me sufocar um pouco até onde eu aguentava, pra depois levantar a cabeça respirando forte, tentando recuperar o fôlego e esquecia por um momento que eu tinha feito aquilo pra esquecer a raiva.
    Eu falava exatamente o que tava me deixando com raiva. Dizia o que não tava gostando, e falava alto e falava mesmo e não media o que tava dizendo, pra poder expulsar tudo aquilo da minha cabeça e deixar claro que aquela merda toda podia não fazer o menor sentido, mas aquela merda toda tava me incomodando SIM.
    Isso fazia eu me acalmar.

    Agora mudou.
    Eu travo e engulo tudo. Fica tudo preso na garganta querendo sair aos gritos e eu não deixo. Isso me faz tremer por dentro e querer chorar. CHORAR. Eu tenho vontade de chorar porque to com raiva.
    Agora, quando eu tenho raiva, eu choro. Agora, eu peguei uma mania de ter vergonha de ter raiva. De me achar imbecil por não gostar de alguma coisa. De pensar: "mas caramba, eu sou chata mesmo, não acredito que to me incomodando com isso, eu devia deixar pra lá". E quando eu não consigo, eu falo e essa sensação aumenta e eu tenho um raiva descontrolada de mim por ter ficado com raiva!
    Agora você me pergunta: MAS QUE MERDA É ESSA?
    E eu respondo: Boa pergunta.

    Queria um pedaço de madeira e uma faca, enorme e afiada. E um lugar aberto e vazio. Pra eu gritar e destruir alguma coisa.
    Queria pelo menos enfiar a cara no meu travesseiro e prender o fôlego um minuto pra esquecer.
    Queria conseguir dizer porque diabos eu to com tanta raiva.
    Mas acho que é por isso que eu to com raiva.
    Porque eu devo ter desaprendido no meio do caminho a ser eu.
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  6. sábado, 25 de fevereiro de 2012

               Era uma vez um passarinho azul, que morava dentro de uma gaiola. Essa gaiola ficava na casa de um homem de seus 60 e poucos anos. Ou mais. Esse homem tinha encontrado o tal passarinho azul no seu jardim há algum tempo atrás. O passarinho azul era pequeno e estava muito machucado. Sabe-se lá o que tinha acontecido com ele. Caiu do ninho, foi machucado por outro bicho, qualquer coisa do tipo. Então o homem pegou o passarinho e levou pra casa, cuidou dele, deu comida e água, até ele sarar.
               O passarinho já morava naquela gaiola há algum tempo. Não era uma gaiola muito grande. Cabia o passarinho. Era uma gaiola de tamanho suficiente para um passarinho viver em paz. Mas aquele não vivia. Vivia olhando o quintal do homem, as árvores e os outros passarinhos voando e cantando no muro e nos galhos das plantas. Olhava morrendo de vontade de sair, de voar, de ver o que tinha mais pra lá do muro.
               Era grato ao homem que tinha cuidado dele, de seus machucados, de suas asinhas e tudo mais. Que tinha alimentado e limpado a gaiola, fazendo o passarinho ficar mais forte e brilhante e azul e pronto pra voar. Era isso que ele queria. Voar muito e longe e escolher uma boa árvore e fazer um ninho, e enjoar dele e fazer outro, e olhar os outros passarinhos e tudo o mais que tivesse pra se olhar depois do muro. O que será que tinha depois do muro? O passarinho mal sabia. Lembrava muito pouco, sabia de muito pouco e isso deixava o passarinho azul ainda mais enlouquecido pra sair dali.
               Todos os dias o homem vinha e colocava comida e água limpa pra ele. Limpava sua gaiola de tempos em tempos. As vezes ficava apenas lá, no quintal, olhando o tempo passar. E o passarinho olhava pra ele, pensava como seria bom poder dizer aquele homem que estava feliz por ele ter cuidado dele todo esse tempo, desde que o passarinho se lembrava, mas pedir a ele pra deixar ele ir voar lá fora. Não podia pedir. E se pudesse, ele pensou, não pediria. O homem fez tanto por ele todo esse tempo. Como teria coragem de virar as costas e abandoná-lo? Isso seria muita ingratidão. Mas o passarinho queria tanto voar...
               Uma tarde, o homem trouxe sua cadeira, colocou no quintal, perto da gaiola, como fazia de vez em quando, e se sentou, com uma bacia de pipocas no colo. Ficou olhando o quintal, as árvores e os outros passarinhos voando, e de vez em quando cantava um pedaço de uma música que, pelo jeito, estava tocando na sua cabeça. O passarinho, vez por outra, cantava sua própria música um pouquinho. O homem olhava pra ele e sorria. O passarinho se sentia mal por querer ir embora. Mas a vontade ainda estava lá. E quanto mais o homem sorria, mais aquela coisa se agitava dentro do pequeno passarinho azul cheio de ideias doidas. E o passarinho, tentando aliviar a bagunça da sua cabeça, resolveu se mexer na gaiola, de um poleiro pro outro. Mas não passava. E ele pulava mais, e para as grades da gaiola. Mas não passava. E ele se agitava e tentou voar ali dentro. E nessa agonia maluca do passarinho, a gaiola balançou um pouco e a portinha se abriu.
               O passarinho parou. Olhou a portinha da gaiola aberta. A chance de sair, de fugir e voar até cansar de voar, ali, na sua frente! O passarinho estava tão chocado com a possibilidade que não voou. Olhou o homem olhando pra ele. Seria ingrato a esse ponto? O passarinho pulou para a grade da portinha, tentando controlar a vontade de voar lá fora. Era muita agitação pra um passarinho tão pequeno! O homem olhou pra ele e estendeu o braço, com uma pipoca na ponta dos dedos. O passarinho voou até ele, pousou em sua mão e pegou a pipoca. Pela primeira vez ali fora, olhando tudo ser ver grades no meio do caminho, o passarinho estava absurdamente feliz. Mas não entendia o homem e o seu gesto estranho. O homem olhou pra ele, sorriu e disse:
               - Ela sempre esteve aberta. Eu pensei que você nunca ia tentar sair.
              O passarinho voou pra longe.
             Voltou a pousar naquele quintal muitas vezes. O homem nunca sabia se aquele era um passarinho azul ou o seu passarinho azul. Mas sempre que via um passarinho azul voando livre, ficava feliz e lembrava do seu passarinho azul voando por aí. E sempre que via um passarinho azul numa gaiola, lembrava do seu passarinho azul, bobo, que podia ter ido embora assim que melhorasse e ficasse forte o bastante. Mas nunca tentou.


    Favor ignorar meu passarinho feio, que foi desenhado pra eu não esquecer da ideia da história.
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  7. domingo, 12 de fevereiro de 2012


    Calma, são remédios.
    Mas ainda assim.

    Minha irmã tá tomando um remédio pra alergia esses dias. Começou sexta. Nada demais.
    Mas acontece que lendo a bula, soubemos que o remédio dá sono. E deixa a pessoa meio... digamos... lesa. É. Lesa é a palavra.

    Eu gostaria de salientar que é da minha irmã que estamos falando. A pessoa que já me rendeu uns dois ou três posts só de coisas estúpidas, sem sentido ou fora de contexto que ela falou. Imagine a criatura que acha que teatro tem acento no "e" e confunde "bipolar" com "biocidental" (seja lá o que isso signifique) tomando um remédio que vai deixar ela meio grogue?

    Eu já tava preparada pra post novo dedicado à pessoa que faz da minha vida uma loucura.

    A monstrinha tomou o primeiro remédio na sexta feira. Acho que logo depois do almoço. Dormiu como uma pedra a tarde inteira. Quando a gente foi jantar, minha mãe acordou ela. Eu tinha colocado a pizza no meu prato e colocado no meu lugar da mesa (sentamos nos mesmos lugares na mesa desde sempre). Ela entrou na cozinha, pegou o MEU prato de pizza do meu lugar, levou pro canto dela e colocou o prato vazio no meu lugar.
    Eu assisti toda a cena sentindo uma mistura de confusão, revolta e incredulidade. Aonde aquela bolinha de ousadia achava que estava indo com a minha pizza? Poxa, eu tinha escolhido aquele pedaço porque tinha mais frangos que os outros, gente! Eu tinha um motivo, eu queria aquele. Ela sentou. Eu reagi:

    - Ô criança, tá indo aonde com a minha pizza?
    - Jantar...
    Eu mereço? Sério?
    - Esse prato é meu, Taiane.
    Taiane olha o prato. Me olha. Olha o prato. Corta um pedaço e come.

    Desisti da luta. Joguei a toalha. A menina claramente não dava a mínima pro meu protesto. Tava totalmente high. Não tinha nada que eu pudesse fazer pra ter minha pizza de volta. Só sofrer.

    Ela continuou comendo minha pizza sem o menor remorso, tranquilamente.
    Cortava um pedaço, furava com o garfo e colocava na boca. Repetia a operação. Até que num certo momento, a atividade pareceu muito complexa pra o cérebro já naturalmente prejudicado da minha irmã. Cortou um pedaço, sofreu pra furar com o garfo e levou até o nariz. Bateu o pedaço de pizza no nariz, na bochecha e em todo espaço ao redor da boca, até finalmente acertar a mira e conseguir comer o pedaço.

    Errar a mira da pizza já seria perturbador. Admita, se acontecesse com você, você certamente pensaria: "Ok, algo não anda bem, preciso me perguntar o que está acontecendo comigo...". Eu pensaria qualquer coisa nessa linha de raciocínio. Mas o que me surpreendeu foi que minha irmã não se abalou.
    Não.
    Nada.
    Nenhuma reação, nem um olhar pra ver se alguém percebeu, nenhuma expressão constrangida, curiosa, preocupada ou divertida. Nadica de nada.
    Ela continuou a comer a pizza (o MEU pedaço de pizza, caso alguém tenha esquecido) calmamente como se nada tivesse acontecido. Como se tudo bem errar a mira e tentar enfiar a pizza no nariz. Bacana, tudo bem, quem nunca?
    Depois desse jantar, eu sabia que as coisas só tinham a piorar.

    Hoje ela dormiu metade da tarde de novo e quando a gente foi sair, ela foi se encarando no espelho do elevador. Olhou o próprio reflexo com uma cara confusa. Virou a cabeça pra um lado e para o outro. Se encarou, séria. Levantou o queixo, ainda olhando pro espelho. Fez uma cara ainda mais séria, quase de raiva. Juro que parecia faltar muito pouco pra ela gritar: "Vai encarar?" e começar a bater no espelho, fazendo o elevador balançar e os cabos arrebentarem fazendo aquela caixa de metal cair e nos matar.
    Mas graças aos céus, chegamos no térreo antes que o pior o ocorresse.



    Isso tá ficando assustador, senhoras e senhores.
    Aconteceram outras coisas tão ou mais estranhas nos últimos dias. Algumas admito que não lembro, outras vou guardar, outras ela provavelmente me cortaria em pedacinhos se eu contasse. E você não contraria alguém que ameaça o próprio reflexo no espelho.

    Mas ainda tem tempo. Eu vou anotar as próximas. Não sei quanto tempo ela vai tomar essa coisinha milagrosa, mas aposto que ainda me rende um ou dois posts.

    Peçam a Deus por mim, eu não quero ser odiada como aquele pobre reflexo...
    :*

    UPDATE


    Muitas dorgas, manolo!
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  8. quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

    Eu me lembro porque comecei a escrever. Fazia isso quando tava triste, com raiva ou confusa. Ajudava a colocar as coisas em ordem, a cavar um sentido pro monte de pensamentos malucos que brotavam todos ao mesmo tempo, me deixando com vontade de correr e gritar. Aí, pra não fazer isso e assustar os vizinhos e os pedestres inocentes, eu escrevia. Tinha cadernos, agendas e folhas de papel com coisas soltas escritas por todo lado. Guardei a maior parte. Pretendo reler tudo quando a vergonha de mim mesma e das minhas bobagens não me atacar mais.

    Eu lembro da época em que eu não entendia por que as pessoas tinham medo de se arriscar. Quando eu achava que o máximo que podia me acontecer eram uns arranhões, cortes ou ossos quebrados. Nada que um gesso desenhado ou um band-aid colorido não resolvesse.
    E aí me arrebentei um monte de vezes. Ganhei cicatrizes grandes e pequenas. Desenhei em muito gesso (menos quando ele tava na mão direita, aí era um saco).

    E aí o tempo passou. E eu me arrebentei com as pessoas. E no começo não era nada que xingar e discutir um pouco não resolvesse. Quando muito, reclamar pras amigas era o suficiente. Mas essa época também passou. E eu precisei começar a reclamar pro caderno, pra agenda, pra a folha de papel mais próxima.

    Lembro de quando comecei com o blog, porque eu queria escrever coisas bobas pra fazer as pessoas rirem. Pra eu rir também. Um jeito de guardar as coisas malucas que me aconteciam e de me lembrar como eu me senti na hora, como eu vi aquilo. Era uma fase boa. Era divertido.

    Mas as coisas mudam. As pessoas mudam.
    Eu me decepcionei comigo, uma ou duas vezes. Ou mais. E aí, escrever começou a ficar complicado. Era me ver no papel. Olhar as palavras e ver, de um jeito claro e ordenado, tudo aquilo que eu era. Tudo o que eu não queria ser misturado com o que eu queria e com o que eu podia ser, de bom ou de ruim. E eu não quis ver aquilo. E não quis mostrar a ninguém.

    E foi por isso que eu parei de escrever aqui. E só hoje me dei conta disso. Das muitas vezes que abri essa página, com umas 3 ou 4 histórias bobas pra contar. Mas não conseguia. E fui deixando.

    Mil perdões pela choradeira. Mas grandes merda, o blog é meu e eu escrevo nele a porcaria que eu quiser.


    Até não sei quando.

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