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  1. sábado, 27 de agosto de 2011


    Chegou em casa, abriu a porta e largou a bolsa no chão. Fechou a porta sem trancar, como se isso exigisse muito dela. Sentou no chão mesmo. Tirou os sapatos, lentamente, como se a tarefa fosse muito complexa, e precisasse ser executada com calma.

    Tanta coisa parecia precisar ser pensada com calma. Coisa que a gente nunca acredita que vai precisar pensar. Aquelas coisas que sempre soam como uma realidade distante, um pesadelo de outra pessoa, que nunca vai ser com você. Nunca é. Ela continuava pensando assim. Porque mesmo agora que era com ela, não parecia ser. Desde que aconteceu, a vida passava como um borrão. Um dia inteiro se passou e ela não viu. Chegou em casa tarde, e estava ali, sentada no chão, sozinha, olhando o vazio na sua frente, ouvindo só o barulho do vento, que parecia deixar tudo ainda mais borrado e sem sentido.

    Dizem que quando a gente perde alguém, o primeiro reflexo é negar tudo aquilo. Dizer que não acredita, não é possível, era tão jovem. Quando Camila ouviu, na manhã de quinta (que tinha começado tão simples e óbvia, sem nada de interessante, o típico dia que passa por você e você não percebe), que Lucia não estava mais ali, ela não teve reflexo. Não negou, não deixou de acreditar, não chorou. Não falou nada também. E o dia passou por ela e ela não viu.

    E agora, ali, sentada no chão da sua casa, ela finalmente percebia o vazio. Pela primeira vez no dia, o não estar ali de Lucia fazia sentido. Mas de um jeito diferente.
    Lucia não estava ali há muito tempo. Há muito tempo tudo tinha mudado entre elas, e o motivo agora perdia a importância. Se cumprimentavam, conversavam banalidades, mas não se conheciam mais. E tudo aquilo que um dia elas tiveram tinha mudado. Como uma caixa de presente, ou uma embalagem, tudo continuava bonito pra quem olhava, continuava quase como sempre foi, continuava normal. Mas não tinha nada dentro. Normalmente não tinham restrições.

    Normalmente não se escolhia uma boa hora pra telefonar. Normalmente se sabia o telefone decorado, e Camila não sabia quantas vezes tinha dado o telefone de Lucia pra alguém, por engano, achando que era o seu. Achando que eram a mesma pessoa. E eram. De um jeito estranho, eram completamente diferentes, e iguais. Mais iguais que diferentes.

    E de um jeito mais estranho ainda, isso morreu.
    E de um jeito ainda mais estranho, Lucia morreu.
    E Camila finalmente se deu conta de como tudo estava agora, perdido para sempre. Percebeu como até poucas horas atrás, ela ainda tinha a opção de trazer de volta o que tinha se espalhado no vento entre elas. Aquilo que elas acreditavam ser forte como aço e que se revelou tão frágil quanto uma bola de sabão.

    Agora não tinha mais volta.
    Camila morava sozinha há tanto tempo, mas só agora sua casa parecia vazia. Só agora ela percebia o vazio que sempre havia estado lá... Aquela coisa que a acompanhava sempre, mas só agora estava clara. E que não tinha mais jeito, e que agora as coisas eram assim.
    E ela chorou um luto que já fazia muito tempo que estava ali.


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    Achei isso tão triste que quase não posto.
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  2. 6 comentários:

    1. AlexGoblin disse...
      Este comentário foi removido pelo autor.
    2. AlexGoblin disse...

      Que triste...

      Da até pra sentir o que a Camila ta sentindo.

      Muito bom, mesmo! Parabéns!

    3. Tuíla disse...

      Obrigada, Alex :)

    4. Estou sem palavras...
      Então é melhor parar de escrevê-las.
      (Acho que você entende o que meu repentino silêncio significa.)

    5. Eliane disse...

      Muito lindo!
      Fiquei encantada! Bjs

    6. Tuíla disse...

      Obrigada, vocês *-*
      E Jair, eu te entendo, sou assim também.