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  1. sexta-feira, 24 de junho de 2011


    Foi isso o que Taiane disse quando a gente desceu dele, na semana passada, depois de uma viagem de mais de uma hora e meia do centro pra casa.

    E ela estava coberta de razão.
    Depois de me fazer circular o centro inteiro numa véspera de feriado atrás de uma porcaria de uma bolsa, se pendurando no meu braço enquanto a gente andava pela Lagoa reclamando que "todo mundo nessa praça olha pra mim com os olhos apertados como se fosse me matar", Taiane ainda me faz entrar no ônibus infestado das pessoas mais apavorantes que já povoaram o planeta.

    Pra começar, Taiane perdeu o cartão do passe no fundo da bolsa, e entrou em desespero. Achar um cartão no fundo da bolsa dela implica em driblar todos os animais selvagens e as criaturas obscuras que vivem ali, encontrar o dito cujo nas entranhas daquele poço sem fundo, e voltar com sua mão ilesa. Imagine fazer isso rindo. Imagine fazer isso rindo enquanto observa o ônibus se aproximar.

    Agora imagine Taiane fazendo isso.

    Toda a parada de ônibus admirou a cena, em êxtase.
    Ao menos eles estavam se divertindo com aquilo.

    Bom, sei que entramos no ônibus.
    Sabe o que eu acho?
    Certas situações, a gente merecia ser avisado. Algo como: olha, não sei se vai ser tão interessante pra você pegar esse ônibus, porque você não espera o próximo?
    Aí a gente poderia escolher, refletir e decidir com mais fundamentação.
    Porque eu certamente teria fincados meus pés na parada de ônibus e só teria entrado naquele se alguém me ameaçasse com ferro em brasa.

    Começou o terror quando dois caras sentaram no banco atrás da gente.
    Eu e Taiane estávamos com um fone no ouvido, cada uma. E ainda assim ouvimos os dois se aproximarem.
    Digo já o motivo: um deles falava aos gritos.
    Juro.
    O cara não falava alto. Falar alto é aceitável, é compreensível, dá pra viver. Ele gritava. Gritava tanto que tinha a voz meio rouca. E ainda assim, absurdamente alta!
    Sabe nas lojas do centro, que as vezes tem uns moços com microfones anunciando as ofertas e fazendo propagandas? O cara parecia estar com um microfone e caixa de som dentro do ônibus. Só que ao invés de ofertas, o cara anunciava toda a história pessoal do próprio irmão.
    O colega que o acompanhava dava respostas constrangidas ao primeiro, toda vez que este perguntava qualquer coisa.

    Como se as coisas ainda não estivessem divertidas o bastante, Taiane resolveu abrilhantar ainda mais a situação soltando um grunhido de frustração, abaixando a cabeça e tapando os ouvidos com as duas mãos, como fazem os pirralhos malcriados quando não querem obedecer alguém.



    Taiane no ônibus, com raiva do moço que grita.

    Me entristeço em dizer que nem assim o moço baixou o volume.
    Mas o colega dele ficou ainda mais constrangido.

    Resumão da novela da vida do irmão do moço que grita:
    O irmão do moço que grita é um vagabundo, disse pra mãe que tava fazendo um curso de sabe Deus o quê em São Paulo, e vivia pedindo pra a mesma mandar dinheiro para ele, dinheiro este que ele gastava em cachaça e prostitutas em Pipa. Até que encontrou uma moça rica e feia e casou com ela, evento que o moço que grita descrevia como: "APLICOU, APLICOU", o que mais tarde eu compreendi como "aplicou o golpe do baú". A mãe do moço que grita não gosta de ouvir o moço que grita dizer isso.

    Legal, né?
    (Como eu armazeno essas coisas e não consigo lembrar da cara das pessoas?????)

    Sei que depois de muita agonia, o moço que grita desceu do ônibus, se despedindo escandalosamente do amigo constrangido, para o alívio dos outros inocentes ocupantes.
    Como é de se esperar, a paz não reinou por muito tempo.

    Eu não percebi quando o casal entrou no ônibus, porque foram discretos.
    Digo casal porque eram um menino e uma menina. Não sei qual a relação entre os mesmos, e sinceramente, to me lixando pra isso.

    Vieram conversando, bastante animados, até que em determinado ponto da conversa, alguém soltou uma piada enlouquecidamente engraçada, que fez o casal da alegria rir de forma descontrolada, escandalosa e irritante.
    Pareciam um par de gralhas loucas sendo atacadas por piolhos assassinos mutantes, porque eles não se contentavam em gritar suas risadas dentro do ônibus: eles precisavam se debater enquanto riam.

    Era uma coisa mais ou menos assim:
    HA HA HA HA HA HA HA HA HA HA *BATE PALMAS* HA HA HA HA HA HA HA COF COF COF HA HA HA HA *MAIS PALMAS* HA HA HA HA *TOSSE COM CATARRO* HA HA HA HA HA HA *REPITA ISSO EM LOOPING POR 40 MINUTOS*

    Foi assustador.
    E quando você achava que eles iam parar, eles começavam a ter convulsões enquanto riam e gritavam de novo, sabe-se lá por qual motivo.
    Sei que quando chegou nossa parada, eu e Taiane quase atropelamos as pessoas que também queriam descer, pra fugir daquele terrorismo psicológico todo.


    Resultado: Tive dor de cabeça o resto do dia e ainda me acusaram de ser chata e estar de TPM.
    Agradeço profundamente aos responsáveis.
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