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  1. terça-feira, 29 de março de 2011

    Situações em que você não sabe o que falar:

    Quando você está na parada de ônibus, cansada e com calor, e alguém te pergunta a hora. Você olha pro céu, pergunta internamente o que você fez de errado dessa vez, olha o próprio pulso e diz: Er, to sem relógio. E completa em pensamento "Caso você não tenha visto".
    Nada demais. Se a pessoa não te olhasse de volta com cara de quem diz: "Não foi isso que eu perguntei" e dissesse: Certo, mas que horas são?
    E você não sabe o que falar.

    Situações em que você não sabe que cara fazer:

    Quando você entra no ônibus e o cobrador te olha estranho. Ele te olha assim, como quem pergunta: "Ei, você me conhece, não vai me cumprimentar?"
    Ele não fala uma palavra, mas dá pra ler isso tranquilamente na expressão dele. O que significa que, se você não for falar nada, no mínimo tem que fazer alguma cara pra ele.
    Você tem certeza de que não o conhece.
    Na verdade, ninguém que você conheça é cobrador de ônibus. Então, por que você conheceria ele?
    Depois de refletir sobre o impasse, você resolve que não sabe que cara fazer. E vai embora, perplexa.

    Situações em que você não sabe como não bater em alguém:

    Quando sua irmã mais nova toma posse do seu corretivo (o de maquiagem, não o de papel) e leva pra escola, no seu primeiro dia de aula, quando tem não uma nem duas, mas cerca de milhares de espinhas na sua cara.
    Juro.
    Nem parecem espinhas. Parece que viviam animais selvagens em miniatura debaixo da pele do seu rosto e subitamente todos eles resolveram sair e brotaram na sua cara. Certo, quem quer aparecer no primeiro dia do semestre com cara de "animais selvagens brotaram aqui".
    E então você esconde aquilo da sua cara com SOMBRA BEGE e vai pra aula. E quando liga para aquela criatura miserável que é sangue do seu sangue, ela responde: "Tá bom, foi mal, tanto faz, tchau."

    Situações em que você não sabe porque ainda tenta:

    Gabriella vira pra mim, no meio da aula e diz: 77 divido por 16. Acho que era isso.
    Olho pra ela chocada.
    Primeiro penso: Por que ela tá fazendo conta de cabeça?
    Depois: Por que ela pensa que eu posso ajudar??
    Papel e caneta. Armo a continha, como aprendi na 2ª série.

    E pega o celular e faz a conta na calculadora, como devia ter feito de primeira.

    Situações em que você não consegue decidir o que faria "se você só tivesse uma bala?".

    1. Taiane
    2. Determinado(a) professor(a)
    3. Determinado(a) monitor(a) que sorri demais
    4. Gabriella que dá ataque.
    5. Lorena que te belisca.
    6. O vizinho que ouve brega de madrugada no volume máximo.
    7. Taiane.
    8. O despertador.
    9. Coloca tudo numa fila, que pelo menos os do final se machucam um pouco.

    Nunca tive bom humor, beijo.
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  2. sexta-feira, 18 de março de 2011

    Você sabe que o seu dia vai dar errado quando você é assaltada às 7:30h da manhã.

    Veja bem:
    Visualize uma parada de ônibus. Com umas cinco pessoas. Eu estava levemente afastada, mas só porque a parada propriamente dita estava toda no sol. Eu fui só me esconder numa sombra.
    Antes que digam que eu sou estúpida, naquele calor,
    se eu tivesse ficado no sol teria tido queimaduras de terceiro grau e morrido antes do ônibus aparecer. Logo, ser assaltada foi lucro.

    Eu já tava ali há uma boa meia hora.
    Estava com raiva o suficiente pra xingar a mãe de quem me olhasse torto.
    Quando a criatura veio andando pelo meio das pessoas na parada, em nenhum minuto eu achei que ele fosse ameaça.
    Quando ele parou do meu lado, pensei que ia me pedir dinheiro.
    Eu tava pronta pra tirar o fone de ouvido e rosnar: Meu filho, eu realmente tenho cara de quem tem dinheiro? Sério que tenho??
    Mas só tive tempo de tirar o fone e ouvir o fim da frase:
    - ...o celular!
    - Anh? - respondi, muito inteligente.
    - Me dá o celular, rápido.

    Não sei vocês, mas nessas horas (e somente nelas) minha cabeça funciona muito rápido.
    Num segundo eu pensei:

    1. Ele é do meu tamanho. E mais magro. Mas eu apanharia dele tranquilamente.

    2. Não deve tá armado, ainda não vi nada, mas não vou arriscar.

    3. Nenhum dos miseráveis na parada de ônibus tá olhando pra cá.
    4. Não vou pedir o chip, ele ta com pressa, vai perder a paciência. E mesmo se não tiver armado, vai me dar um murro só pelo contratempo. Eu daria.

    5. PelamordeDeus, meu celular não vai render nem 15 reais pra ele, ele que leve...

    Entreguei o celular.
    Com sangue no olho.
    SETE E MEIA DA MANHÃ, issé hora de assaltar uma pessoa?
    Eu já tinha acordado de SEIS E MEIA, isso ainda não foi castigo o suficiente?
    Seja lá o que eu tenha feito nessa vida.

    E lá sei foi meu chip da tim. Ontem mesmo alguém me ligou por engano nele, e ficou puxando conversa. Foi tão engraçado, e eu fui até dormir feliz porque já tinha história pro blog (que eu escrevi depois). E o meu "amigo do engano" disse que ligaria outra vez, então eu já estava esperando uma série completa. Mas o pivete LEVOU MEU CHIP.

    Enfim, ele segurou meu braço, apontou pra um lado e falou:
    - Ele foi pra lá, viu?
    E saiu andando pro outro lado.
    Entendi facilmente o que ele quis dizer: "Cala a boca, vai pra lá e não olha pra trás".
    Foi o que eu fiz, frustrada.

    Mas em menos de 10 segundos, o moleque passa correndo por mim, e um homem atrás dele, gritando: PEGA ELE, PEGA!
    Não me pergunte de onde eles saíram. Aparentemente, o moço do PEGA ELE e mais dois estavam bem mais atrás de mim, o tempo todo, um deles vendendo cachorro quente pros outros, e quando entenderam a cena, vieram me ajudar.

    O moço do cachorro quente veio me dar uma BRONCA. Sério.
    - Minha filha, era pra você ter dado o telefone não, era pra ter chamado a gente...
    - Mas eu não sabia que você tavam ali, moço...
    - Mas era pra ter chamado!
    Percebi que ele não ia entender o conceito de alguém não perceber a presença dele. Deixei essa parte de lado e disse:
    - Era...

    Um outro moço, num buggy, parou na calçada e disse:
    - O pirralho te roubou? (acho absurdo considerarem um pirralho, só por que ele tinha uns 5cm a menos que eu)
    - Foi, levou o celular...
    - Vou pegar ele - e saiu cantando pneu.

    A essa altura o meu ônibus tinha aparecido e levado todo mundo que estava na parada dentro dele. Menos eu.
    Eu fiquei porque tinha esperança de que um dos meus heróis voltasse com meu chip da tim. Ainda esperei um pouco, levei mais bronca do moço do cachorro quente. Até que outro ônibus apareceu e eu deixei pra lá.

    Fui embora, frustrada, com saudade do meu chip.
    Façam favor de me dar afeto, que eu tou precisando.

    :*
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  3. quinta-feira, 10 de março de 2011

    Escrevi esse texto há muito tempo atrás, mesmo. Acho que há uns 3 ou 4 anos. Muito antes de começar com o blog. E como ultimamente eu tava meio difícil com a inspiração, resolvi postar aqui.

    -

    Centro de cidade. Época de Natal, as pessoas passando de um lado para o outro nas calçadas, como se seus compromissos fossem sempre os mais importantes.

    Sentado no chão, um menino com a mão estendida segurando um boné velho, parecia não dar a menor atenção a nada ao seu redor. Afinal, que diferença fazia? Natal para ele não tinha nada daquela alegria que as pessoas pareciam ter na televisão. E elas não ficavam mais generosas também. Tudo com o que elas pareciam se importar era em chegar primeiro nas lojas e conseguir os menores preços.

    O barulho, a correria e o calor sempre os mesmos. Talvez um pouco mais devido à quantidade de pessoas. Tiago já havia passado a manhã inteira de pé no sinal. Agora, quase uma hora da tarde, ele se sentava para descansar um pouco. A barriga doía. Uma dor de fome já conhecida. Tentou ignorar.

    Alguém parou na sua frente. Tiago levantou os olhos. Era uma moça, parecia ter entre 18 e 19 anos. Bonita, vestida com roupas simples, porém novas e limpas. Tinha os cabelos compridos, levemente cacheados nas pontas e os olhos de um castanho que brilhava a luz do sol e pareciam ter esperado a vida inteira para vê-lo. Em todos os seus 8 anos de vida, nunca alguém tinha olhado para ele daquela maneira:

    - Oi... – disse ela, hesitante – Meu nome é Janaína, e o seu?

    - Tiago – respondeu olhando desconfiado.

    - Oi Tiago. Você já... já comeu hoje?

    Ele balançou a cabeça, dizendo que não. Janaína parecia ter levado uma pancada antes de responder. Olhava para ele com um carinho que ele nunca tinha visto antes em outra pessoa.

    - Então... Não quer vir comigo? A gente ta preparando um almoço pra todo mundo por aqui, de graça. O que acha?

    Os olhos de Tiago brilharam com a menção da palavra “almoço”. Há um bom tempo ele não tinha certeza do que era isso. Tudo o que comia eram as poucas coisas que conseguia comprar com o dinheiro que ganhava pedindo. Ou o que sua mãe trazia quando chegava tarde da noite em casa, do trabalho.

    Janaína estendeu a mão. Foram andando até uma casa simples, pequena, onde Tiago já havia visto uns movimentos estranhos de pessoas entrando e saindo. Nesse dia, uma fila imensa tinha se formado dentro da casa. Parecia ser ainda maior porque ia até o portão e algumas pessoas já estavam na calçada.

    - Fica aqui ta? Não sai daí que eu vou buscar uma ficha.

    Tiago ficou na fila, enquanto Janaína entrava na casa chamando por alguém. Ele nem se importou em perguntar o que seria a tal ficha. O cheiro bom da comida prendia sua atenção. A fila andava bem rápida e quando Janaína voltou, já estava bem perto da sua vez. Ela esperou, enquanto ele se servia e foram sentar em uma das mesas distribuídas pelo terraço.

    Era um almoço simples. Arroz, feijão, um pouco de verdura e um pedaço de carne. Mas para Tiago era um banquete. Ele comia com vontade, afinal, nunca sabia quando seria sua próxima refeição. Janaína esperou pacientemente que ele terminasse e só então começou a conversar com ele:

    - Hum... Tiago? Eu posso te fazer umas perguntinhas, sobre você, só pra eu anotar aqui?

    - Você num vai cobrar não, né, moça? Porque eu num tenho dinheiro e a senhora disse que num pagava, por isso eu vim e...

    - Calma, não, não é pra cobrar não... É sobre sua vida. Umas informações, pra ver se a gente pode te ajudar.

    - Ah, certo. Então ta...

    Janaína fazia as perguntas e anotava. Foi aos poucos descobrindo que Tiago vivia em um barraco muito pequeno, em uma comunidade próxima dali, com mais 4 irmãos. A mãe era quem sustentava a casa. Pai, ele nunca havia conhecido. Um dos irmãos, o mais velho, mal aparecia em casa. E quando aparecia, “só dava dor de cabeça”. Era metido com os traficantes da favela e a mãe preferia que ficasse longe a viver em casa trazendo problemas e influenciando os irmãos.

    Ela ouvia o relato atenta. Percebendo os detalhes. Como as feições mudavam a cada pergunta. As mãozinhas pequenas gesticulando, deixando entrever calos, cortes ainda abertos e cicatrizes de uma infância maltratada e injusta. Janaína não conseguia parar de imaginar como, em uma mesma cidade, as pessoas cresciam de maneiras tão diferentes. Era difícil aceitar que aquela criança não pudesse ter tido as mesmas oportunidades que ela. E por quê? A pergunta sem resposta circulava em sua mente enquanto ouvia o menino falando.

    - ...E eu sempre quis saber ler. Ver o que tem nas placas, sabe? Eu fico só olhando as letras coloridas e brincando de adivinhar...

    Aquilo doía nela como uma facada no coração. Por quê? Isso era simplesmente injusto. Ela não era melhor que Tiago em absolutamente nada. Havia aprendido isso. Ninguém era melhor que ninguém. Todas as pessoas tinham valor. Então por que ela teve direito a uma escola, um pai, carinho, brinquedos, e ele não? Por que ela pôde ter uma infância e ele não? Ele não estava tendo. E aquele tempo perdido nunca voltaria.

    - ...passei uns 3 dias vomitando preto e minha mãe desesperada. Meu irmão, o maior, ficou com muita raiva porque mamãe disse que nem morta ela ia trabalhar e me deixar sozinho. Ele xingou muito ela dizendo que a gente ficava com fome por culpa dela. Mas isso não é verdade, porque minha mãe é muito boa...

    Uma infância destruída. Mais uma. Falta de oportunidades iguais para todos. Pobreza, fome. Uns com tanto, outros com tão pouco. Alguns com o suficiente. De quem era essa culpa. Ela não sabia. O sistema? Resposta muito vaga. Os governantes? São como as folhas levadas pelo vento. Desistiu de procurar culpados. Isso não resolveria o problema. E o que resolveria então?

    - ...até porque num é sempre que a mãe consegue trazer comida da casa da patroa dela pra a gente. E nem é todo dia que as moedas dão pra muita coisa. Dá pra um pouco de pão. Mas isso num mata fome do dia todo. E os moleques às vezes batem na gente e leva tudo...

    Soluções. Alguém poderia dar casa, escola, comida e carinho a essa criança. Ela mesma podia fazer isso. Um apertozinho no orçamento, mas valeria a pena. Infelizmente não era uma solução. A miséria não ia deixar de existir por causa disso. Quem sabe ela podia mandar um pouco do seu salário para ajudar aquela família. E daí? Quantas outras na mesma situação não continuariam a passar necessidades?

    - ...e meu irmão passou quase um mês inteiro sem aparecer em casa. Mamãe ficou louca de preocupada com ele. Num sei por que, ele só dá trabalho a ela. Depois ela foi descobrir que ele tava escondido porque tava devendo aos caras lá...

    Ela se perguntava até quando crianças iriam se envolver com drogas e com o tráfico por não verem outra opção de vida? Aquilo simplesmente não devia ser considerado uma opção. Muitas delas morriam antes de chegar à idade adulta. Os traficantes não perdoam ninguém. Isso era revoltante.

    Janaína olhou para aquela criança. A pele escura, marcada de cicatrizes, cada uma delas contando uma história. Os cabelos curtos, bem sujos, com um ou outro reflexo dourado de tanto sol. Rosto de menino, postura de homem. De quem já tinha visto o pior lado da vida e já havia entendido melhor que muitos adultos, o significado da frase: “Ninguém disse que a vida era justa”.

    Depois de preenchida a ficha, ela explicou a Tiago que alguém da instituição visitaria sua casa e tentaria ajudar em alguma coisa:

    - Mas, como dá pra você ver – disse ela – são muitas famílias. Talvez a ajuda seja pouca...

    - ...mas é ajuda. – ele completou, mostrando que compreendia a frustração de Janaína por poder fazer tão pouco. Eles se despediram e foram embora. Ela para casa. Ele para o mundo.

    Dentro do ônibus, no caminho de volta, uma lágrima descia enquanto relembrava uma conversa com um amigo há alguns dias:

    “- Por que você faz isso? – perguntou ele.

    - Você não se sente bem em ajudar?

    - Janaína, essa não é a questão. Você estuda, trabalha, e ainda perde tempo com uma ONG? Você sabe muito bem que isso não vai ser o suficiente. Não vai resolver o problema.

    - É, eu sei. Eu posso não acabar com a pobreza. Provavelmente não vou conseguir fazer com que todas as pessoas possam comer antes de dormir. Mas, no fim da minha vida, quero ter a consciência limpa, sabendo que eu tentei.”

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