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  1. quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011


    Quando eu tinha 8 anos, na segunda série, eu descobri uma das coisas mais maravilhosas inventadas pelo homem: A bolinha de gude.

    Foi quando eu tava passando por uma banca de revista, eu acho, e vi um saco amarelo furadinho com umas 15 bolinhas pretas dentro. Eram lindas, bem escuras. Meu pai comprou pra mim e eu fiquei maravilhada com aquilo.
    Passava meus dias em casa jogando as bolinhas no rodapé que, diferente dos rodapés comuns, não formava uma quina com o chão, era arredondado, formando uma rampinha. Era minha glória. As bolinhas eram os skatistas num campeonato. Ou os carros numa corrida. Enfim...
    Na escola, os meninos jogavam bolinha de gude no intervalo. Não daquele jeito tradicional, com o desenho do círculo no chão e tal. Eles se sentavam a um metro um do outro, mais ou menos, escolhiam uma de suas bolinhas, e o outro tinha que acertá-la. Era bem simples, mas virou uma mania no colégio, porque cada um que escolhesse a bolinha menor pro adversário tentar acertar. E cada um que escolhesse a bolinha mais específica para acertar a bolinha escolhida pelo outro. Teorias sobre as combinações de bolinhas eram criadas e campeonatos eram disputados.
    Então, eis que a menina da 2ª série, com seu saco de bolinhas pretas, descobre que até leva jeito pra o jogo.

    Foi minha glória.
    Quando eu percebi que eu sabia fazer aquilo, e que era até melhor que alguns meninos, passei a jogar viciadamente. Se você acertasse a bolinha do outro, ela era sua. Minha coleção foi aumentando, e a gente trocava bolinhas bonitas por bolinhas feias, as grandes pelas menorzinhas, as muito leves pelas mais pesadas. Era um tráfico de bolinhas de gude. Era o império das crianças e as bolinhas eram o nosso dinheiro. Crianças enlouqueciam pelas bolinhas. Inimizades eram feitas por causa das bolinhas. Brigas começavam pelas bolinhas. Crianças ficavam sem intervalo porque estavam trocando bolinhas na aula. Era o capitalismo infantil reinando. E era perigosamente levado a sério.
    Eu juntei uma coleção grande o suficiente pra guardar numa garrafa de um litro de coca-cola (não era muito prático, porque pegar as bolinhas do fundo era absurdamente difícil, mas era aonde cabia, e quem liga pra praticidade quando se tem 8 anos?), o que me deixava orgulhosa. Das poucas meninas que jogavam, a minha coleção era tranquilamente a melhor. E comparada aos meninos, estava entre as coleções consideráveis. Claro, que tinham aqueles miseráveis com garrafas de 2 litros cheias de bolinhas, mas eles não traziam sempre pra escola, só as vezes, pra impressionar e meter medo nos outros. Eles eram os reis da escola.

    Enfim.
    Eu lembro daquele dia nitidamente.
    A aula tinha terminado e a pirralhada estava no pátio, cada um esperando seus pais. Eu sempre demorava pra ir pra casa porque minha mãe trabalhava no colégio, mas eu não me importava. Eu estava jogando com um menino, minha garrafa do lado, feliz como um animal bem alimentado. E estava tão concentrada que me assustei quando senti alguém cutucar meu ombro.

    Era um menino, provavelmente da 3ª série, porque eu nunca tinha visto na minha sala e não era grande o suficiente pra ser da 4ª série. Nunca tinha visto ele antes, aliás. Não tinha prestado atenção. Ele se abaixou e falou no meu ouvido:
    - Aqueles meninos da 4ª vão chutar tua garrafa, presta atenção.
    Levantou, sorriu pra mim, e saiu.

    Ele sabia que eu tinha entendido.
    Qualquer jogador compulsivo de bolinha de gude entenderia. Era como sua mãe dizer: Tá de castigo. Ela não precisa dizer o motivo, ou qual o castigo. O dia a dia já te ensinou aquilo. Tá tudo implícito.
    Eu tinha cometido um erro simples: minha garrafa estava aberta.
    Os meninos da 4ª série iam chutar, derrubar todas as minhas bolinhas no pátio, e sumir com metade delas antes que eu conseguisse entender o que tinha acontecido. E fala sério, eram os meninos da 4ª série! Eu era apenas da segunda, com meu um metro de altura, magrela como um palito de dente, e com meus cabelos arrepiados. Eu ia concluir o ensino médio antes de recuperar todas as minhas bolinhas daqueles monstros. E quando não conseguisse, ia me jogar no chão, arrancar os cabelos e gritar até enlouquecer.

    Agarrei minha garrafa no mesmo instante e tampei.
    Não me lembro se ganhei mais alguma bolinha naquele dia. Mas sei que o susto foi grande.
    Naquela época, se alguém me oferecesse 20 reais pelas minhas bolinhas, eu riria na cara dele. Elas eram meu brinquedo preferido, que tipo de pessoa estúpida poderia imaginar que eu iria vendê-las? Só muito tempo depois eu me toquei que se eu vendesse, poderia comprar outras, mas isso não vem ao caso.

    Aquilo ficou na minha cabeça.
    O menino correu o risco de enfrentar a fúria dos meninos da 4ª série, bem maiores que ele, inclusive, pra proteger as minhas preciosas bolinhas de gude. As minhas bolinhas.
    Foi a primeira prova de amizade que eu me lembro.
    É, aquilo era claro:
    Amizade é alguém proteger suas bolinhas de gude só porque sabe que você gosta muito delas.

    Hoje eu percebo uma lição absurdamente simples disso daí, mas que as pessoas parecem ter uma tendência a esquecer.
    Amizade é quando alguém cuida dos seus interesses sem ganhar nada em troca. Simplesmente porque sabe a importância daquilo pra você. É quando uma pessoa se coloca no seu lugar e percebe o seu ponto de vista, mesmo que pra ela, aquilo talvez seja bobo ou estúpido. Um amigo é quem considera importante ver você feliz.

    Depois daquele dia, eu não lembro muito bem do menino.
    Mas ele foi o primeiro amigo que eu tive.


    ---

    Minha nossa, como eu tou fofa. O que tá acontecendo comigo?
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  2. 7 comentários:

    1. AlexGoblin disse...

      Lindo! *.*

      Adoro teus textos.

    2. ela disse...
      Este comentário foi removido pelo autor.
    3. Tali disse...

      É pq você pensou em mim. Você me ama tanto e tem a plena certeza que não sabe viver sem mim, que por isso você foi tão meiga :D KKKKKK'
      Te amo irmã de sinal, conta comigo.

    4. Tuíla disse...

      Santa humildade, Talita UAHSUAHS
      Sabe que eu não vivo sem tu, né, nega?

      E Alex, muito obrigada *-*

    5. Mathews disse...

      HAHAHA
      Ela sempre lembra de mim, até nas horas dos seus posts.

      Amizade é isso mesmo, toda hora, todo tempo, perto ou longe, tamo juntoo!!

      Amo tu maninhaaaaa

    6. LIANNE disse...

      tuíla... qndo comecei a ler seu blog, desde la de cima, virei sua fã!
      vc tem o dom da escrita!!!
      lidno texto!!! nao pare de escrever...

    7. Eliane disse...

      Tuíla, amei todos os textos, mas este é o mais belo de todos. Sempre q venho no seu blog, começo lendo este.