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  1. quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

    Pior que uma tristeza, é ter que sair de casa com ela. Mas pior ainda era sair triste num dia chuvoso. E aquela menina sentia na pele. Dava pra ler naquele rosto. Era o tipo de pessoa que tinha letreiros nos olhos. Não era necessária muita sensibilidade para perceber. Apenas uma vista medianamente boa, e pronto, estava ali.
    Tinha os olhos cansados, levemente avermelhados ao redor, com aquela cor bonita de castanho que a tristeza deixa em quem chora. Apesar de tudo, não dava pra ter pena. Algo nela mostrava uma força que ela nem notava que tinha. Um contraste com o cansaço do olhar.
    Ela, aliás, era toda contraste. Entre o que era e a ideia que tinha de si. Entre sua força e seu cansaço. Entre ela e aquele céu nublado.
    A chuva tinha parado, e ela esperava o ônibus sozinha. Respirava fundo, e esfregava o rosto como se assim pudesse apagar tudo o que via e ouvia. A ideia que as pessoas têm umas das outras podem ser cruéis, contém algumas verdades, mas raramente são exatas. E ela tinha aquela mania de guardar bem fundo as piores partes, como se lá não incomodassem ninguém.
    Entrou no ônibus e sentou ao lado de um cara. Ele devia ter uns 25 anos e não tinha nada de muito bonito ou que chamasse atenção. Mas tinha uma vista muito boa, e a menina ao seu lado foi percebida. E aqueles olhos de letreiro foram observados discretamente, e lidos com interesse.
    Mais uma parada para ele descer. O ônibus passou perto demais de uma árvore e suas folhas molhadas caíram dentro, pela janela. E entre elas, no colo dele, uma pequena flor amarela e úmida. Ele olhou a flor e a segurou. Cheia de pingos, parecia triste, como se tivesse chorado, mas ainda assim, bonita.
    Ele se levantou e pediu licença. Ela afastou. Ele puxou a corda, e parou. Tocou a menina no ombro. E seus olhos de letreiro se viraram, com uma interrogação meio apagada. Ele lhe entregou a flor, sorriu e foi embora.
    Nunca mais se encontraram. A flor murchou logo. Mas alguma mensagem foi passada, pois um instante depois, foi visto brilho naqueles olhos. Um brilho que contrastou com toda aquela ideia que ela tinha de si. E naquele dia, foi o bastante.
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  2. 3 comentários:

    1. Jair Pessoa disse...

      Tuíla, um certo Mandoca me apresentou o blog. Esse texto foi a primeira coisa que li. Lembro de mim mesmo, tentando ser profundo quando tinha 20 -- não preciso dizer o quanto resultava idiota -- e fico feliz ao ver o quanto tudo em você é naturalmente denso, embora tenso... :-)
      Eu poderia comentar um montão. Prefiro, contudo, esperar para que algo arrebatador de novo me entorpeça, para que "Contraste" não seja acusado de ter sobre mim o efeito "primeiro amor"(ou "primeiro beijo", ou "primeiro Valisère").
      Parabéns pela sua arte.
      Invista.
      Tem gente que vive disso, adorável desempregada.
      Shalom.
      Jair Pessoa

    2. Eliane disse...

      Só pessoas verdadeiras falam com os olhos. Amei o texto.

    3. ArMandoca disse...

      Tremendo, não sei dizer mais nada, até porque não tenho competência para isto.