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  1. domingo, 16 de janeiro de 2011

    Veja bem, eu moro na parte mais deprimida e excluída da cidade. Logo, se eu quero sair do meu bairro, 80% das vezes, eu preciso pegar mais de um ônibus. Coisa que me deixa absurdamente deprimida por um motivo simples: quando você pensa que acabou, tem mais.

    Eu tava indo pra casa de Jack semana passada, desci no coisa de integração dos ônibus e fiquei esperando o outro ônibus pra a casa dela. Ali no integração sempre ocorre um fenômeno curioso: os vendedores de cds piratas que ficam do lado de fora nos olhando pela grade parecem ter um sexto sentido. Eles olham e pensam: "Hm, aquela baixinha do cabelo de moita tem cara de quem adora um Forró da Tarraxinha". E botam "siliga à meia noite vai rolá, num disliga o celulá, purqui eu vô ti ligááá..."

    Só pra avisar, eu não curto forró da tarraxinha, nem forró do muído, nem o forro da xêta, nem o dos plays e nem qualquer outra qualidade dessas coisas que as pessoas têm a ousadia de chamar de música.
    Talvez um forró pé de serra, mas nada além disso.

    Mas aquele vendedor teve seu castigo.
    Aquela pirralha não tinha mais que 4 anos.
    Demorei uns 10 minutos pra indentificar a criatura responsável por colocar aquela pequena bolinha do mal no mundo. Ela corria loucamente pela parada e eu pensava: Minha nossa, a quem pertence essa criança?
    Ouvi a mãe dela gritar um "volta fulaninha" uma única vez. Mas foi só.

    A menina viu o vendedor de cds piratas. Correu pra grade e desatou a gritar: EI... EEEI... EEI... EI... EIII...
    O cara ainda deu cabimento a ela na primeira vez, mas infelizmente não vi o que ela fez pra provocar a ira dele. Deve ter mostrado o língua, ou o dedo, vai saber. Ou xingado a mãe dele. Não vi. Nem ouvi. Mas sei que o homem rapidinho passou a ignorar a pirralha, que no auge de sua ira começou a não só gritar EI, como também a bater palmas para chamar a atenção do moço.



    E ela ficou fazendo isso até o ônibus aparecer.
    E ela gritava tanto que ninguém nem ouvia mais o forró da tarraxinha. Sinceramente, naquele momento, forró da tarraxinha parecia doce e suave, comparado aos guinchos da menina-monstro.

    Bom, quando o meu ônibus chegou, eu corri.
    E a minha surpresa foi ver a mãe com a menina em seu colo e alguém que deveria ser a tia do lado.
    Fiquei olhando atentamente.
    A menina ficou em pé no colo da mãe, olhando a janela, dando uns gritos que com certeza queriam dizer alguma coisa, mas era firmemente ignorada pela mãe e a tia. Diante disso, a guria se voltou contra o moço sentado na sua frente.
    "Deve ser avô dela." pensei.
    A menina mexia no cabelo do senhor, assanhava tudo, puxava, batia, e dava uma risada insana e alta. A mãe segurava ela pelas pernas, pra não cair.
    "Pobre avô. Por que ele não vira, chama essa pirralha de peste, dá um cascudo nela e fica em paz. Ela deve ser neta dele, no mínimo. Ele é meio velho pra ser o pai. Aliás, vai saber. Mas por que ele não faz nada?"

    Quando eu vi o senhor se levantar e ir sentar em outra cadeira lá na frente, fiquei abismada.
    Ele não era parente delas. Ele não era alguém de casa, alguém que acaba tendo que aguentar a pirralha abusada pelo bem da paz familiar. Ele estava apenas, como eu, no ônibus.
    E a louca da mãe da pirralha nem por um minuto fez qualquer gesto que desse a entender que ia mandar a pirralha parar com aquilo.
    Eu me coloquei no lugar do velho.
    No mínimo teria me levantado e gritado: SUA LOUCA, SEGURE ESTA CRIANÇA MISERÁVEL, MANDE-A PARAR COM ISSO E DÊ O MÍNIMO DE EDUCAÇÃO A ELA, porque quando ela tiver idade e força suficiente, vai TE DAR UMA SURRA se você não comprar a super-master-mega casa da Barbie pra ela porque precisa fazer a feira.
    Me coloquei no lugar da mãe da pirralha.
    Quando ela tivessa dito o primeiro EI pro moço do cd pirata, eu teria pego ela pelo braço e teria dito: Fica aqui, e quieta.
    Quando ela tivesse dado o primeiro puxão de cabelo no velho do ônibus, eu a colocaria sentada e teria dito: TÁ FICANDO DOIDA? VOCÊ QUER FICAR DE CASTIGO PELO RESTO DA SUA VIDA E NUNCA MAIS VER A LUZ DO DIA?
    E tudo seria resolvido sem maiores constrangimentos.

    Eu simplesmente fico chocada quando vejo pirralho dando piti e gritando com a mãe, ou fazendo coisas absurdas tipo essa.
    Eu nunca, NUNCA tive coragem de responder aos meus pais. Avalie gritar?
    Eu sou do tempo em que desobedecer ao pai ou a mãe rendia um cascudo acompanhado de um PIROU MOLEQUE? Ou isso ou um mês sem tv, computador e gibis.

    Meus pais nunca foram cruéis, longe disso. Mas quando eu era criança, perdi a conta de palmadas MUITO merecidas que eu levei. E das eras que passei sem meus gibis. Minha mãe dizia: Você tá de castigo, não liga a tv essa semana e nem pega os gibis.
    Meus gibis ficavam num quarto, ao meu alcance. Ela não tirava os gibis dali. Ela não escondia. Ela não ficava olhando pra ver se eu ia pegar mesmo assim. E eu não pegava.
    Uma vez meu pai pegou minha cadeirinha vermelha e colocou no canto da sala e disse que eu ia ficar ali de castigo por tantos minutos. Eu devia ter uns 7 anos, foi uma eternidade. Nesse dia, ele saiu da sala. E eu fiquei em pé, e sentei de novo, muito rápido. Me senti, por um minuto, a rebelde. Mas isso passou voando, no outro segundo, me senti a pior marginal do universo, merecedora de passar o resto da minha vida naquela cadeirinha vermelha.

    Quer dizer, qualquer um estava se sentindo incomodado com aquela pirralha. Até eu me sentia perseguida. Se eu tivesse algum tipo de paranóia, ia ter um surto quando vi minha parada de ônibus, levantei, apertei o botão (preciso ficar na ponta do pé pra puxar a cordinha) e vi elas descerem do ônibus no mesmo lugar. E a mãe daquela criança nem reagiu. Juro que tive vontade de sacudir aquela mulher e mandar ela tomar vergonha na cara.

    Mas, eu aprendi desde criança a não me meter no que não tem nada a ver comigo.
    :*
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  2. 1 comentários:

    1. Eliane disse...

      Ri muito quando vc chamou a pirralha de PEQUENA BOLINHA DO MAL.