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  1. quarta-feira, 2 de novembro de 2011

    Você sabe que horas são.
    Você não sabe quanto tempo vai levar pra curar uma dor.

    Você sabe se tá chovendo lá fora.
    Você não sabe se alguém tá inteiro por dentro.

    Você sabe o número de telefone de alguém.
    Você não sabe quantas vezes essa pessoa pensou em largar tudo e sumir.

    Você sabe qual a banda que alguém gosta.
    Mas não se atreva a dizer o que ele sente ou não.
    Não se atreva a dizer que ela não gosta, não sente ou não quer.
    Não ouse falar que ele quer, precisa ou deveria.

    Você sabe quanto tem na sua carteira.
    Você não sabe o que passa na cabeça de quem tá do seu lado.
    Mesmo que seu nome tenha sido o primeiro que ela falou.
    Mesmo que você saiba quando e como foram todas as experiências dele.
    Você não sabe quais foram realmente as mais importantes.
    De quais ele lembra melhor.
    E quais ela queria esquecer.

    Você sabe o que comeu no almoço.
    Você certamente não sabe de tudo o que alguém pretende fazer da vida.
    Não sabe de tudo o que ele gostaria que acontecesse.
    Não sabe do que ele sente falta.
    Não sabe onde ele queria estar.

    Você sabe seu endereço.
    Você pode até saber o endereço de alguém.
    O email, @ do twitter, facebook, orkut, nº do cartão, curso da universidade, RG e CPF, quantos irmãos, tios, primos, cachorros e papagaios, quantos cigarros fuma num dia, signo, nome do primeiro namorado, quantas vezes já foi presa e quantas brigas teve no meio da rua.
    Mas você certamente não sabe quantas vezes ela prendeu o choro na frente dos outros.
    E quantas vezes riu sem ter vontade.
    E como ele enxerga o mundo.

    Você pode achar que sabe tudo de alguém.
    Principalmente alguém que costuma ter emoções estampadas na cara.
    Mas ainda assim, as pessoas podem surpreender.
    Podem não ser como você achava que eram.

    Você não sabe o que os outros pensam ou sentem.
    Nem se sentem ou pensam.
    Você mal sabe sobre você.
    Imagina sobre os outros.
    Então não fale como se soubesse.
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  2. segunda-feira, 17 de outubro de 2011

    A gente acorda, todo dia de manhã, com algum tipo de expectativa.
    Sério.
    Nem que seja só a expectativa de estar vivo no fim do dia. Nem que seja só aquela certeza de que quando descer da cama, vai pisar no chão, e não no vazio. E que vai cumprir sua rotina, ou pelo menos parte dela, e o dia vai acabar como começou.
    A gente, por mais que diga que não, acaba fazendo planos. Dos mais bobos, aos mais complexos. Completos.

    Hoje de manhã eu acordei pensando que iria pra universidade, ia na reitoria, ia na biblioteca, ia na sala da extensão e ia arrumar o bagulho pro trabalho, mandar pro email da moça, voltaria pra casa, almoçaria e ia ler meu livro novo, estudar, adiantar trabalhos e depois dormir porque a essa altura, o dia já teria terminado.

    Mas acabou que eu fui pra universidade, não consegui fazer a internet funcionar na sala da extensão, não mandei o email. Saí da reitoria voando, esqueci de ir na biblioteca, tive dor de cabeça no ônibus. Cheguei em casa e tive que arrumar o bagulho do trabalho e este se saiu mais difícil do que eu esperava, piorando minha dor de cabeça. Demorei pra ir almoçar por causa disso (coisa que eu não costumo fazer, e deve ter piorado mais ainda minha dor de cabeça). Só consegui mandar o email lá pras 15h. Me atrasei com isso também por causa do relógio do computador me dando susto com esse raio de horário de verão (alguém avise que eu não tenho mais idade pra isso???). Não li meu livro. Não adiantei trabalho nenhum. Só lavei a louça.

    E tudo bem. Sobrevivi.
    Eu não costumo me revoltar (não muito) quando o meu dia não sai como eu planejei. Porque partes dele simplesmente fogem ao meu controle. Mas quando a gente fala de coisas grandes, é diferente.
    E não deveria.
    Quando seu dia acontece fora dos seus planos, você compreende, sabe que é assim, mesmo que isso é normal.
    Mas quando sua vida sai do eixo? Quando você planeja, sei lá, fazer aula de teatro, virar atriz, fazer um filme, ganhar um Oscar, casar com Johnny Depp, e ter seu nome na estrelinha lá da calçada. Ou quando você resolve que quer ser, sei lá, dentista, ter seu consultório, ficar rico, morar na França, e ter um gato chamado Antônio.
    E vai no meio do caminho, um pedacinho disso aí muda. Por que a gente surta?
    Quer dizer, se numa coisa boba e minúscula quando o seu dia, ocorrem mudanças nos planos, que dirá numa coisa complexa quanto a sua vida. A gente parece que esquece disso.

    É um plano muito longo pra você supor que tem controle sobre ele. As coisas mudam. Para o bem ou para o mal, elas não são sempre as mesmas.
    E a gente devia usar o dia a dia como treino pra isso.


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    Tinha dito pra mim mesma que não ia escrever, enquanto não tivesse certeza de que ia sair uma coisa decente. Não saiu. Mas eu contrariei meus planos e escrevi mesmo assim.

    Peço perdão pra quem resolveu ler, mas meus dedos são temperamentais, eles queriam escrever e eu não consegui controlá-los.

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  3. sábado, 8 de outubro de 2011

    Achei por bem que devia uma explicação.
    To sem postar aqui por pura e simples falta de inspiração\motivação. Já é um custo eu gostar de alguma coisa que escrevo quando to feliz da vida. Como ultimamente meu humor não vem sendo dos melhores, eu raramente gosto de alguma coisa que escrevo.

    E pra ficar colocando choradeira todo dia, não dá.
    Então, quando eu conseguir, eu posto.

    Até lá
    :*
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  4. sexta-feira, 23 de setembro de 2011

    Já ouvi isso algumas vezes de algumas pessoas. Especialmente de amigos. E de pessoas que me conheciam há pouco tempo e me viam irritada, ou falando alguma viagem muito grande. Mas nunca alguém que nunca interagiu comigo disse isso.
    E foi divertido!

    Minha mãe dá aula a um menininho, de 5 anos, chamado Mateus.
    Dá aula pra ele toda tarde. É um pirralho muito fofinho, inteligente e que de vez em quando sai com umas pérolas. Minha mãe sempre vem com histórias dele. História de criança é sempre inusitada. Mas essa ganhou o prêmio.

    - Tu não sabe o que Mateus disse hoje...
    - O quê?
    - Ele perguntou sobre as minhas filhas, e eu falei de vocês duas, e ele disse que tem medo de você.
    Pausa dramática.
    Você compreende quando alguém faz uma propaganda negativa sua. É aceitável. É normal. É verdade, algumas vezes. Muitas vezes...
    Mas sua mãe?? Espera-se que as mães falem bem de seus filhos mesmo que eles sejam uns idiotas. Eu já vi um monte de mãe, coitada, cujos filhos são umas almas sebosas que mal mereciam viver. E a mãe acha aquele quadrúpede maravilhoso.
    Então eu pergunto: Que qualidade de propaganda minha mãe anda fazendo de mim?

    - Anh... O que você disse a ele...?
    - Nada! Mas ele disse que tem medo de você porque você é adulta e tem cabelo cacheado.
    - Quê?
    - É.
    - Ele disse?
    - Disse. "Tia, eu tenho medo da tua filha Tuíla, porque ela é adulta e tem o cabelo cacheado."
    Pausa dramática número dois.
    TEM UMA CRIANÇA COM MEDO DE MIM POR CAUSA DO MEU CABELO.

    Agora viva com isso.

    Tudo bem, a vida é assim.
    Seu cabelo te sacaneia, mesmo que as pessoas nunca tenham visto.

    Eu só quero dizer que eu não sei se me choco mais pelo menino ter cismado da boneca com meu cabelo que ele NUNCA VIU, ou por causa do menino ter dito que a filha da professora dele é ~adulta~.
    HAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHA COF COF HAAHHAHAHA
    Ah, claro, pobre criança iludida da vida. Só você, no alto dos seus 5 anos, pra considerar um hobbit de um metro e meio, como ~adulta~.
    MEU AMIGO, EU ASSISTO DESENHO ANIMADO.
    Mas, que seja. Quem sou eu pra contrariar a criança?

    Criança tem medo de cada coisa (de mim, por exemplo).
    Quando eu era criança, eu assisti Titanic, não me lembro onde. Não lembro se foi aqui em casa. Ou na casa da minha tia. Não sei. Mas eu lembro de uma coisa: eu passei bastante tempo sem dormir direito porque achava que minha casa estava dentro de um navio e que ia afundar e entrar água e todos nós seríamos acordados no meio da noite ao som de violinos e iríamos morrer afogados e congelados.
    Sim, eu realmente acreditava nisso.

    Eu gostava de olhar as nuvens e dizer com o que elas pareciam. Mas um belo dia, eu tava na casa da minha avó, deitada na grama do jardim, fazendo isso, quando fiquei com a sensação de que tava flutuando e que ia sair voando céu acima, e passar das nuvens, passar do sol, passar do universo, passar de tudo e ficar flutuando pra sempre e ninguém nunca mais ia me achar. Entrei em casa correndo e não saí o resto do dia.
    Bem verdade que o medo passou e eu fiquei vários dias tentando ter a sensação de novo, porque, cara, eu queria voar!

    Eu tinha medo do Gasparzinho, mas tinha vergonha de dizer isso pras pessoas (com razão).
    Tinha/tenho medo de sapo/rã/perereca/etc e tal.
    Tinha medo de repetir pesadelo.
    Tinha medo de não conseguir dormir.
    Tinha medo de olhar pro teto do quarto quando não conseguia dormir, porque eu sempre ficava com a sensação de que o quarto ia ficando enorme, enorme, enorme, ou que ia cair alguma coisa de lá, tipo como aconteceu uma vez quando eu tive alucinação de febre (mas isso é outra história).

    Mas eu nunca, nunca, nunca tive medo do cabelo de ninguém.
    Acho uma injustiça que tenham medo do meu.


    -

    P.S.: Minha mãe disse que levou uma foto minha pro menino, e que ele disse que eu era bonita e que não tinha mais medo de mim e que eu deveria ir jogar videogame com ele (L) OUN
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  5. quarta-feira, 7 de setembro de 2011

    Eu pensei em começar a escrever um post sobre isso: ouço uma batida.
    Eles sabem. Não é possível que não saibam.

    Vou explicar como.
    Fique cansada, tenha uma dor de cabeça ou um dia ruim: Pode ter certeza de que quando chegar em casa, eles vão martelar.
    As pessoas que moram acima de mim certamente gostam de reformas, mudanças e de trocar as coisas de lugar. Mas quando eu digo que gostam, é porque gostam muito mesmo. Eu moro nesse prédio há mais de... ó céus, sei lá, 6 anos? Vamo fazer de conta que sim. 6 anos. Quem faz a conta pra mim?

    Deixa, bando de chato, eu faço.
    6 anos.
    6 x 12. Droga. Calma. 6 x 2 = 12... e 72? Espero que isso esteja certo...
    Eu não vou pegar a calculadora. EU CONSIGO! Calma. Respira.
    Me perdi. Onde eu tava? Ah, 72 meses. Certo. 72 x 4...
    Por que eu não calculei logo 6 x 365?
    AAH, que saco!
    Cadê meu celular?
    2190, e se tiver errado foi a calculadora.

    (Esse post vai ficar uma merda e eu to nem aí. Não apago!)
    Voltando.
    EM 2190 DIAS, ESSE POVO MARTELOU, FUROU, ARRASTOU MÓVEL, SAPATEOU DE SALTO ALTO E BATEU COISAS NO CHÃO EM TODOS ELES!
    Juro.

    Fica ainda pior.
    Eles escolhem bater/furar/derrubar a casa em dois horários: no meio da noite, ou quando você está com dor de cabeça. Sempre.
    Toda santa noite eles arrastam móveis. Agora me diga: Quem troca os móveis de casa de lugar todos os dias, aproximadamente à meia noite? QUEM? POR QUE?
    E mais: trocam os móveis de lugar usando salto alto. QUEM TROCA MÓVEIS DE LUGAR DE SALTO ALTO? Nem Rayza é tão diva, peloamordeDeus!

    Eu tenho uma teoria sobre essa coisa dos móveis, que precisa ser aperfeiçoada mas eu vou dividir com o mundo mesmo assim.
    Eu aposto que esse povo trafica pessoas. Sério. Eles devem manter montes de pessoas dentro de casa, trancadas nos armários, amarrada embaixo das camas, penduradas no teto, sei lá. Isso explica as marteladas. Tão pendurando as pessoas como se fossem quadros (ou tão pendurando quadros mesmo, mas isso não teria graça). E aposto que quando chega um novo carregamento de pessoas (que deve chegar em caixas, porque eu nunca vejo) eles precisam arrastar os móveis pra poder colocar as pessoas novas.
    Ou você pode pegar essa minha teoria e substituir "pessoas" por gatos. Ou por quadros. Ou por macacos. Não, macacos não seriam tão barulhentos. Macacos inteligentes, como os do filme do Planeta dos Macacos do cinema. MACACOS EXPERIMENTAIS!
    CARACA, tão fazendo experimentos com macacos no meu prédio!

    Nada disso explica o salto alto.
    Vai ver a moça é só muito diva mesmo e eu não consigo alcançar o nível de glamour dela.
    É, é isso.

    Pronto.
    Resolvido o mistério.
    Só denunciar e correr pra ninguém me prender nas paredes feito um quadro!


    Beijo, to fugindo.


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    P.S.: Isso tudo deve estar tão estúpido que eu nem vou ler antes de postar HAHAHA
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  6. sábado, 27 de agosto de 2011


    Chegou em casa, abriu a porta e largou a bolsa no chão. Fechou a porta sem trancar, como se isso exigisse muito dela. Sentou no chão mesmo. Tirou os sapatos, lentamente, como se a tarefa fosse muito complexa, e precisasse ser executada com calma.

    Tanta coisa parecia precisar ser pensada com calma. Coisa que a gente nunca acredita que vai precisar pensar. Aquelas coisas que sempre soam como uma realidade distante, um pesadelo de outra pessoa, que nunca vai ser com você. Nunca é. Ela continuava pensando assim. Porque mesmo agora que era com ela, não parecia ser. Desde que aconteceu, a vida passava como um borrão. Um dia inteiro se passou e ela não viu. Chegou em casa tarde, e estava ali, sentada no chão, sozinha, olhando o vazio na sua frente, ouvindo só o barulho do vento, que parecia deixar tudo ainda mais borrado e sem sentido.

    Dizem que quando a gente perde alguém, o primeiro reflexo é negar tudo aquilo. Dizer que não acredita, não é possível, era tão jovem. Quando Camila ouviu, na manhã de quinta (que tinha começado tão simples e óbvia, sem nada de interessante, o típico dia que passa por você e você não percebe), que Lucia não estava mais ali, ela não teve reflexo. Não negou, não deixou de acreditar, não chorou. Não falou nada também. E o dia passou por ela e ela não viu.

    E agora, ali, sentada no chão da sua casa, ela finalmente percebia o vazio. Pela primeira vez no dia, o não estar ali de Lucia fazia sentido. Mas de um jeito diferente.
    Lucia não estava ali há muito tempo. Há muito tempo tudo tinha mudado entre elas, e o motivo agora perdia a importância. Se cumprimentavam, conversavam banalidades, mas não se conheciam mais. E tudo aquilo que um dia elas tiveram tinha mudado. Como uma caixa de presente, ou uma embalagem, tudo continuava bonito pra quem olhava, continuava quase como sempre foi, continuava normal. Mas não tinha nada dentro. Normalmente não tinham restrições.

    Normalmente não se escolhia uma boa hora pra telefonar. Normalmente se sabia o telefone decorado, e Camila não sabia quantas vezes tinha dado o telefone de Lucia pra alguém, por engano, achando que era o seu. Achando que eram a mesma pessoa. E eram. De um jeito estranho, eram completamente diferentes, e iguais. Mais iguais que diferentes.

    E de um jeito mais estranho ainda, isso morreu.
    E de um jeito ainda mais estranho, Lucia morreu.
    E Camila finalmente se deu conta de como tudo estava agora, perdido para sempre. Percebeu como até poucas horas atrás, ela ainda tinha a opção de trazer de volta o que tinha se espalhado no vento entre elas. Aquilo que elas acreditavam ser forte como aço e que se revelou tão frágil quanto uma bola de sabão.

    Agora não tinha mais volta.
    Camila morava sozinha há tanto tempo, mas só agora sua casa parecia vazia. Só agora ela percebia o vazio que sempre havia estado lá... Aquela coisa que a acompanhava sempre, mas só agora estava clara. E que não tinha mais jeito, e que agora as coisas eram assim.
    E ela chorou um luto que já fazia muito tempo que estava ali.


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    Achei isso tão triste que quase não posto.
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  7. domingo, 14 de agosto de 2011

    Quero deixar claro aqui, pra todo mundo ver, que vocês podem se estapear de tentar, mas nunca vão conseguir ser melhores que o meu pai.

    É, desistam.
    Não vão.

    Meu pai foi o cara que disse "Vai, menina, deixa de ser besta, tu sobe mais alto que isso nessa árvore, anda!", mesmo enquanto minha mãe choramingava que eu ia cair e morrer. E aí eu aprendi, desde criança que eu podia sim, ir mais alto que aquilo. Que eu não precisava ter tanto medo das coisas, que eu era mais forte do que parecia, que ele estava ali embaixo, pra me segurar se eu caísse, ou cuidar de mim se eu me machucasse.

    Foi ele quem disse várias vezes "Deixe de choro, menina, isso nem tá doendo tanto!", até eu perceber que não tava mesmo. Até me ensinar que o machucado sempre ficava bom, e que eu podia correr, pular, me jogar e fazer outro, porque o outro ia sarar também. Me ensinou que eu não devia ter medo de me machucar, porque se eu tivesse, eu ia perder toda a diversão que acontece antes do joelho arrebentado. E aí eu descobri que tem risco que vale a pena, porque mesmo que eu me machuque, aquilo sempre passa. E nem dói tanto assim.


    Quando eu não queria comer, meu pai sentava comigo na mesa, enchia uma colher de feijão (eu detesto feijão), e dizia:
    - Essa colher ta dentro de uma caixa de madeira, enrolada por correntes, presa num guindaste muito alto do chão. Como você faz pra chegar nela?
    E de repente, descobrir como alcançar aquela colher de feijão parecia super importante, e eu tinha que pensar em como fazer aquilo pra poder comer. E assim terminava o almoço e eu ficava querendo que tivesse mais feijão pra a brincadeira continuar.
    Meu pai me ensinou a pensar no caminho pra alcançar o objetivo, me ensinou a procurar as ferramentas onde fosse, pra conseguir alguma coisa. E a fazer disso uma coisa divertida, que dá vontade de continuar, e de ficar tentando por horas, pensando sobre aquilo, imaginando, inventando, e tentando de novo, quando não dava certo da primeira vez.

    Meu pai me ensinou, com a vida dele, a ser honesta. A fazer por merecer alguma coisa. Meu pai me ensinou a interpretar aquele olhar que significa "Você quer apanhar, sua cabrita?", e obedecer, a ser uma pessoa decente, educada. A saber que tem coisas que são minhas e coisas que são dos outros e que não adianta o quando eu chore e esperneie gritando "me dá, me dá", ninguém vai me dar tudo o que eu quiser. E que se eu chorar e espernear, é pêia garantida.

    Ele até me ensinou a me defender, brincando de luta e me derrubando no chão, ou na areia da praia e gritando de novo: "Vem, parou por quê?". E eu ia, rindo. E não pensem que não doía. Mas eu realmente nem ligava, e aquilo acabou por me ensinar que tem dor que não mata, não te destrói, ao contrário, é aquela dorzinha gostosa que te dá vontade de levantar, correr e lutar mais um pouco, e ir mais longe.

    Meu pai me ensinou a não ser boba, chorona ou medrosa. Me ensinou que ninguém lá fora vai ter pena de mim, e que eu tenho mais é que ser forte. Me ensinou a ser resistente.

    E o melhor de tudo:
    Me ensinou que poucas coisas são melhores na vida que rir, brincar, ter amigos, falar besteira, tirar onda e ver graça nas coisas.

    Painho, obrigada por brincar comigo, rir comigo e passar tempo comigo. Você me ensinou coisas que eu vou levar pra sempre.



    EU AMO VOCÊ!

    Feliz dia dos Pais, mas só pra aqueles que sabem o valor de passar tempo com seus filhos!
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  8. terça-feira, 26 de julho de 2011

    A minha não presta. Mas não presta de verdade.
    Admiro muito gente como Diana, que conseguiu lembrar o nome de uma música que a gente ouviu na ida pra Recife no carro do pai de Gabi, ano passado, daquela vez que a gente foi pra casa de Anissa.
    Ou quem chega pra você no meio de uma discussão e diz: "Você disse isso semana passada! Pensa que eu esqueci?".
    Ou quem bate o olho em uma pessoa no meio da rua e diz: "Ah, estudei com aquela criatura na 2ª série!"

    Galera, COMO VOCÊS FAZEM ISSO?

    Eu NUNCA me lembro onde deixei meu sorine. NUNCA. Eu já cheguei a ter três potinhos do troço ao mesmo tempo, porque perdia um e precisava comprar outro. E depois ia achando um por um aos poucos, e percebia que estavam em lugares óbvios.
    Sempre acontece também aquela coisa legal de você pensar: "Durrr, eu vou guardar esse papel muito importante neste lugar muito fácil e duurrr, só assim eu não vou esquecer onde botei."

    A regra é clara: Se você pensar isso antes de guardar alguma coisa, você vai esquecer.

    Já perdi altas contas do Hotmail porque esquecia as senhas e, INCLUSIVE, as tais respostas para perguntas secretas.
    E esquecia também qual o outro email que eu tinha cadastrado para enviarem a senha caso isso acontecesse.
    Ou isso, ou esquecia a senha do email reserva também.

    E nomes de pessoas. E rostos de pessoas.
    Esses são os piores.
    Aquela pessoa passa por você na rua, abre um sorrisão, te dá um abraço, te chama pelo nome, conta histórias da sua vida, algumas que você nem mesmo sabia, pergunta como vai a família, os amigos em comum, a irmã, o namorado, a vó, o cachorro, o papagaio e você lá, com aquela gigantesca cara de bunda, um sorriso ridículo, pensando: MEU DEUS, DE ONDE EU CONHEÇO VOCÊ?
    O pior fato que me ocorreu foi quando eu e Taiane estávamos na locadora, e um cara apareceu. Sorriu como se não houvesse amanhã, falou com a minha irmã, me cumprimentou e disse:
    - Tuíla não lembra de mim, né?

    Me encolhi.
    Eu juro que tava tentando disfarçar ao máximo, mas eu não fazia ideia de quem era aquele moço. Nem aquela sensação de "Te conheço de algum lugar...". Nem isso. Pra mim, ele era uma pessoa aleatória, que chegou na locadora ao mesmo tempo, e nada tinha a ver comigo.
    E o cara me coloca numa situação dessas.
    Devo ter ficado de todas as cores nesse momento.
    Meu rosto deveria estar lindo naquele tom de rosa-chiclete.

    - Er... Anh.... Não, mas... Lembro... É...
    - Lembra nada! Taiane, não diga a ela, não conta.
    Isso é cruel. Colocar minha irmã contra mim foi golpe baixo.
    Rosto muda para azul-avatar.

    - Como tu não lembra de mim, que absurdo! Nem tinha te dado carona se soubesse que você ia esquecer...

    Caraca, eu andei no carro desse cara? E não me lembro? Em quem eu estou me transformando???
    A cor agora era verde-esgoto.

    Meu sorriso variava entre uma risada constrangida e um sorriso amarelo canário. Se ele leu no meu rosto tão facilmente que eu não lembrava dele, poderia ter lido também o letreiro em neon que dizia: "Quero morrer porque vou explodir de tanta vergonha, então procure o mínimo de decência que resta em você e pare de me torturar."
    Provavelmente ele leu, mas era sádico demais pra se importar.

    Quando o cara finalmente se foi, eu pergunto a Taiane quem ele era, pelo amor de Deus???
    E eu sei que ela me disse. Lembro que ela me disse quem ele era, o nome, e como e quando pegamos carona com ele. Lembro de ter dado um tapa na testa e de ter pensado: Que imbecil eu sou, era tão óbvio!"
    Mas não me lembro quem era o cara.

    E espero não encontrá-lo na rua nunca mais, porque quando ele começar com o papo de "Tuíla não lembra de mim...", eu juro que me jogo na frente do 513, cujo motorista maldito terá prazer em me matar, e acabo com a tortura de uma vez.


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  9. Cada um que venha sem nome
    Pra morar na minha cabeça
    E perder ou ganhar meu dia inteiro.

    Cada um que me puxe pra um lado
    Feito boneca de pano
    Pra ver até onde eu aguento.

    Até eu perceber que nada existe
    Fora dessas ideias bobas
    E que doem mesmo assim.



    Post bobo pra combinar com domingo de chuva que deixa meu pé gelado.
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  10. sexta-feira, 24 de junho de 2011


    Foi isso o que Taiane disse quando a gente desceu dele, na semana passada, depois de uma viagem de mais de uma hora e meia do centro pra casa.

    E ela estava coberta de razão.
    Depois de me fazer circular o centro inteiro numa véspera de feriado atrás de uma porcaria de uma bolsa, se pendurando no meu braço enquanto a gente andava pela Lagoa reclamando que "todo mundo nessa praça olha pra mim com os olhos apertados como se fosse me matar", Taiane ainda me faz entrar no ônibus infestado das pessoas mais apavorantes que já povoaram o planeta.

    Pra começar, Taiane perdeu o cartão do passe no fundo da bolsa, e entrou em desespero. Achar um cartão no fundo da bolsa dela implica em driblar todos os animais selvagens e as criaturas obscuras que vivem ali, encontrar o dito cujo nas entranhas daquele poço sem fundo, e voltar com sua mão ilesa. Imagine fazer isso rindo. Imagine fazer isso rindo enquanto observa o ônibus se aproximar.

    Agora imagine Taiane fazendo isso.

    Toda a parada de ônibus admirou a cena, em êxtase.
    Ao menos eles estavam se divertindo com aquilo.

    Bom, sei que entramos no ônibus.
    Sabe o que eu acho?
    Certas situações, a gente merecia ser avisado. Algo como: olha, não sei se vai ser tão interessante pra você pegar esse ônibus, porque você não espera o próximo?
    Aí a gente poderia escolher, refletir e decidir com mais fundamentação.
    Porque eu certamente teria fincados meus pés na parada de ônibus e só teria entrado naquele se alguém me ameaçasse com ferro em brasa.

    Começou o terror quando dois caras sentaram no banco atrás da gente.
    Eu e Taiane estávamos com um fone no ouvido, cada uma. E ainda assim ouvimos os dois se aproximarem.
    Digo já o motivo: um deles falava aos gritos.
    Juro.
    O cara não falava alto. Falar alto é aceitável, é compreensível, dá pra viver. Ele gritava. Gritava tanto que tinha a voz meio rouca. E ainda assim, absurdamente alta!
    Sabe nas lojas do centro, que as vezes tem uns moços com microfones anunciando as ofertas e fazendo propagandas? O cara parecia estar com um microfone e caixa de som dentro do ônibus. Só que ao invés de ofertas, o cara anunciava toda a história pessoal do próprio irmão.
    O colega que o acompanhava dava respostas constrangidas ao primeiro, toda vez que este perguntava qualquer coisa.

    Como se as coisas ainda não estivessem divertidas o bastante, Taiane resolveu abrilhantar ainda mais a situação soltando um grunhido de frustração, abaixando a cabeça e tapando os ouvidos com as duas mãos, como fazem os pirralhos malcriados quando não querem obedecer alguém.



    Taiane no ônibus, com raiva do moço que grita.

    Me entristeço em dizer que nem assim o moço baixou o volume.
    Mas o colega dele ficou ainda mais constrangido.

    Resumão da novela da vida do irmão do moço que grita:
    O irmão do moço que grita é um vagabundo, disse pra mãe que tava fazendo um curso de sabe Deus o quê em São Paulo, e vivia pedindo pra a mesma mandar dinheiro para ele, dinheiro este que ele gastava em cachaça e prostitutas em Pipa. Até que encontrou uma moça rica e feia e casou com ela, evento que o moço que grita descrevia como: "APLICOU, APLICOU", o que mais tarde eu compreendi como "aplicou o golpe do baú". A mãe do moço que grita não gosta de ouvir o moço que grita dizer isso.

    Legal, né?
    (Como eu armazeno essas coisas e não consigo lembrar da cara das pessoas?????)

    Sei que depois de muita agonia, o moço que grita desceu do ônibus, se despedindo escandalosamente do amigo constrangido, para o alívio dos outros inocentes ocupantes.
    Como é de se esperar, a paz não reinou por muito tempo.

    Eu não percebi quando o casal entrou no ônibus, porque foram discretos.
    Digo casal porque eram um menino e uma menina. Não sei qual a relação entre os mesmos, e sinceramente, to me lixando pra isso.

    Vieram conversando, bastante animados, até que em determinado ponto da conversa, alguém soltou uma piada enlouquecidamente engraçada, que fez o casal da alegria rir de forma descontrolada, escandalosa e irritante.
    Pareciam um par de gralhas loucas sendo atacadas por piolhos assassinos mutantes, porque eles não se contentavam em gritar suas risadas dentro do ônibus: eles precisavam se debater enquanto riam.

    Era uma coisa mais ou menos assim:
    HA HA HA HA HA HA HA HA HA HA *BATE PALMAS* HA HA HA HA HA HA HA COF COF COF HA HA HA HA *MAIS PALMAS* HA HA HA HA *TOSSE COM CATARRO* HA HA HA HA HA HA *REPITA ISSO EM LOOPING POR 40 MINUTOS*

    Foi assustador.
    E quando você achava que eles iam parar, eles começavam a ter convulsões enquanto riam e gritavam de novo, sabe-se lá por qual motivo.
    Sei que quando chegou nossa parada, eu e Taiane quase atropelamos as pessoas que também queriam descer, pra fugir daquele terrorismo psicológico todo.


    Resultado: Tive dor de cabeça o resto do dia e ainda me acusaram de ser chata e estar de TPM.
    Agradeço profundamente aos responsáveis.
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  11. domingo, 29 de maio de 2011

    1. Quem implica com minhas roupas.
    Eu não me arrumo, nunca praticamente. Vivo meus dias de camisa e calça jeans e sandália havaiana. Olho roupas, nas lojas e na internet, acho lindas, mas não me vejo usando aquilo. A verdade é essa. Eu me esforço, as vezes, tento. Mas raramente funciona. Provavelmente por isso eu detesto ouvir crítica sobre a roupa que eu to usando. Mal sei ouvir elogio, avalie crítica?

    2. Parecer burra.
    Talvez eu até seja, mas odeio deixar isso explícito demais. Odeio quando falam de um assunto que eu não entendo e eu sou obrigada a dizer: "Er, não faço ideia do que é isso...". To aprendendo a lidar melhor com isso, mas me incomoda. Porque eu nunca deixo de perguntar. Raramente finjo que entendi uma coisa que eu não entendi. Eu sempre digo que não entendi. Sempre faço aquela cara de quem colocou um piano na frente de um gato e mandou ele tocar. E solto um som parecido com "aaaannh??", e minha cara se contorce toda, o que normalmente leva a pessoa a dar uma leve risada. E é nessa hora que eu me sinto imbecil.

    3. Minhas olheiras.
    Nem se eu hibernasse. Nem se eu cobrisse minha cara inteira de corretivo, base, pó, argila, uma máscara de carnaval, NADA, no universo, é capaz de cobrir minhas olheiras. Elas são tão imensas e escuras e descomunais que tomam conta de metade da minha cara e chamam mais atenção que qualquer coisa coisa. Mesmo que alguém arrancasse meus olhos e os deixasse pendurados pra fora, como no filme nojento que Gabi tava contando ontem, mesmo assim, as pessoas diriam: "Cara, tu dormiu mal? Porque tá com umas olheiras enormes... Ah, e acho que tem um cisco no teu olho...".

    4. Filmes de terror.
    Me chamem de medrosa (eu sou), mas eu odeio. Não entendo a lógica de se pagar (ou não, mas mesmo assim) pra ver uma coisa que vai te dar medo. Medo não é bom. Eu odeio ter medo. Odeio mais ainda tomar susto. Por que eu pagaria (ou iria voluntariamente e gratuitamente) pra isso? Não faz sentido pra mim.

    5. Perder meu sorine.
    E acontece com mais frequência do que eu aguento. Minha memória é um lixo, um lixo enorme. Eu nunca lembro onde botei as coisas. Quando é o celular, eu posso dar um toque, ouvir o barulho e encontrar. Mas não dá pra dar um toque pro meu sorine. E o que torna tudo pior: eu só resolvo procurar meu sorine quando to sufocando, com o nariz completamente inutilizado pra respiração, servindo unicamente pra me trazer desespero. Essa é uma das sensações mais terríveis de todas. Sinto vontade de gritar enquanto corro pela casa procurando. E eu sei o que vão dizer: é bem feito, essa coisinha vicia, blablabla. Vou dizer uma coisa pra vocês: TO NEM AÍ SE ESSE RAIO VICIA. Qualquer coisa é melhor que ficar sufocando e se debatendo com a porcaria que você tem o descaramento de chamar de nariz sem funcionar. O problema em questão é a minha memória, vamo manter o foco nisso, por favor?

    6. Acordar cedo.
    Sei, eu e o mundo. Me digam se não é uma sensação horrorosa, quando você tá desesperadamente cansada, e acorda de 6 e meia da manhã e seu quarto tá tão escuro (porque o céu tá caindo lá fora) que você acha que ainda são 3h da madrugada e seu despertador é que enlouqueceu? Eu juro que ultimamente to num nível de cansaço (ou preguiça, como prefiram) que to desbancando o Garfield, e só consigo me levantar pra ir pra aula porque fico repetindo pra mim mesma: "Quando eu chegar em casa de meio dia, vou dormir até a hora de voltar pra universidade e não vou nem comer de tanto dormir...". Acho válido ressaltar que eu NUNCA faço isso.

    7. Voz aguda.
    Poucas coisas no universo são mais irritantes que gente que não fala, guincha. Normalmente são meninas, normalmente tem seus 15, 16 anos, e fazem questão de falar absurdamente alto com suas vozes de rato, num tom tão fino, agudo e desesperador que é capaz de fazer a população de uma cidade querer correr e se jogar de um barranco num mar de pedras pontudas, só pra acabar com a agonia.

    8. Agulhas.
    E nem vou comentar, porque falar do assunto me dá agonia também.

    9. Quem completa meus desenhos.
    Quando eu to rabiscando no caderno de desenho, especificamente. Tenho vontade de arrancar o estômago de quem fica olhando por cima do meu ombro, TOMA o lápis da minha mão, e diz: "Faz assim, ó!". Pode até ter feito uma mudança válida. Pode ter ficado melhor. Pode ser que a pessoa seja uma desenhista maravilhosa, coisa que eu sei que eu não sou. Mas pra mim ela cagou o meu desenho de forma irreversível, e tudo o que eu sinto vontade de fazer é arrancar a página e enfiar na garganta e ficar observando ela agonizar.

    10. Quem assanha meu cabelo.
    Mil perdões às pessoas com cabelos lisos e escorregadios, que podem sacudi-los ao vento, fazer carão de modelo, e rugir dizendo: "Eu sou sexy, me desejem!". To cagando pra vocês. Meu cabelo não aguenta nem vento demais, imagina com alguém bagunçando ele? Aliás, qual o objetivo das pessoas maiores que eu (exemplo: todas) que acham super legal dar tapinhas na minha cabeça e BAGUNÇAR meu cabelo? O meu cabelo JÁ É uma bagunça. Ele não precisa da ajuda de nenhum de vocês para ter o formato de um arbusto. POR QUE vocês insistem em piorar a situação? Bom, se você é uma dessas pessoas que olha o meu cabelo assustador e sente uma vontade incontrolável de meter a mão nele e sacudir, eu tenho uma alternativa pra você dar vazão a essa sua pulsão incontrolável: TACA A MÃO NUM TRITURADOR DE COMIDA, põe o que sobrar no pão e COME! Mas deixa meu cabelo em paz.



    To num bom humor que faz medo, sintam-se avisados.
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  12. sexta-feira, 20 de maio de 2011


    Eles me deixam cada dia mais impressionada. Comigo. E com as pessoas.
    Ler provoca em mim reações que nenhum filme, nem nada mais, nunca conseguiu.
    Eu nunca chorei vendo um filme. Eu nunca tive raiva por causa de um filme (só quando era um filme ruim). Eu nunca fiquei triste por causa de um filme.

    Quando algo no livro não acontece como eu queria, quando o personagem que eu gosto morre, ou não aparece o suficiente, ou não se dá bem, eu fico realmente com raiva. Raiva mesmo. Eu li um livro da minha irmã hoje, estilo os que eu costumava ler quando comecei a gostar de ler. Precisava de um pouco de palavras leves, que me fizessem rir. Lá vou eu pra Meg Cabot, me distrair.
    O livro não era ruim, mas:
    a) Aconteceu uma coisa que eu não queria/não concordei
    b) Meu personagem preferido passou METADE do livro sem aparecer.
    c) Terminei, e percebi que era um livro com continuação.
    Fiquei com tanta raiva que Taiane pediu pra eu ir ler em outro canto pra ela ligar a TV e eu xinguei ela.

    Outra vez eu tava lendo algum livro, onde o protagonista sofria como um condenado. Daí deu a hora de ir pra aula e eu larguei o livro. Na parte triste.
    Passei o resto do dia deprimida e chorei quando derrubei água no chão da cozinha.
    E eu nem tava de TPM.

    Já chorei de rir com Veríssimo. Já tive medo de trechos de livros que não me lembro agora.

    E já aconteceram vezes de eu ficar paralisada na frente de um livro, pensando como alguém era capaz de se expressar de uma maneira tão maravilhosa e tão linda.

    E quem me proporcionou a sensação foi Jair, mostrando um trecho de um livro e descrevendo a sensação que eu ia ter de uma forma exata, que eu nunca ia conseguir.
    A sensação de "que bom que eu vivi pra ler isso" e a conclusão de "eu nunca vou escrever assim".
    A satisfação de que existe gente de verdade que tem talento pra fazer coisas que nos impressionem, mesmo que aquilo seja inatingível pra você. Mas que vai te dar aquela vontade louca de tentar fazer melhor mais uma vez.
    Eu li aquilo, e me senti ainda menor que meu 1,54m. Me senti o Frodo encontrando as pessoas grandes, tentando montar um cavalo normal. Encolhi pelo menos meio metro. E fiquei olhando aquelas palavras tão perfeitas e tão precisas que pareciam formar uma imagem na minha frente, simples, e incrível.

    Se contorçam, como eu:
    "Não há nada mais solitário do que estar em um carro à noite na chuva. Eu estava em um carro. E estava feliz com isso. Entre um e outro ponto do mapa havia o estar sozinho no carro na chuva. Dizem que você só é você em relação com outras pessoas. Se não existssem outras pessoas não existiria você, porque o que você faz, o que você é, apenas tem significado em relação às outras pessoas. Este é um pensamento muito reconfortante quando se está sozinho em um carro à noite na chuva, pois lá você não é você, e, não sendo você ou nada, você pode realmente deitar-se e descansar. São férias de ser você. Há apenas o fluxo do motor sob seu pé girando aquele frágil fio de som que sai do metal como uma aranha, aquele filamento, aquela ligação, que não está realmente lá, entre o você que acabou de deixar em um lugar e o você que será quando chegar ao outro lugar.
    Você tem que convidar os dois vocês para a mesma festa, qualquer dia desses. Ou pode fazer uma reunião de família para todos os vocês, um churrasco sob as árvores. Seria divertido saber o que eles diriam uns aos outros.
    Mas, enquanto isso, não há nenhum deles, e eu estou no carro, na chuva à noite."

    Diretamente do email de Jair, um trecho de "Todos os homens do rei", de Robert Penn Warren.
    E repito o que respondi pra ele:
    Eu PRECISO ler esse livro.
    Eu preciso DECORAR esse livro.

    E eu já tive essa sensação antes.
    De pensar, CARACA ESSE(A) CARA(MENINA) É UM GÊNIO!

    "Outros males existem que poderão vir; pois o próprio Sauron é apenas um servidor ou emissário. Todavia não é nossa função controlar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que pudermos para socorrer os tempos em que estamos inseridos, erradicando o mal dos campos que conhecemos, para que aqueles que viverem depois tenham terra limpa para cultivar. Que tempo encontrarão não é nossa função determinar." Gandalf, pág 148

    Tolkien, O senhor dos Anéis - O Retorno do Rei
    Não vou nem comentar sobre esse rapaz, porque não é normal uma coisa dessas.

    "Nós nunca mentimos. Quando mentimos, é para o bem de vocês. Verdade. Começa na infância, quando a gente diz para a mãe que está sentindo uma coisa estranha, bem aqui, e não pode ir à aula sob pena de morrer no caminho. Se fôssemos sinceros e disséssemos que não tínhamos feito a lição de casa e por isso não podíamos enfrentar a professora, a mãe teria uma grande decepção. Assim, lhe dávamos a alegria de se preocupar conosco, que é a coisa que mãe mais gosta, e a poupávamos de descobrir a nossa falta de caráter."

    Prefácio do livro As mentiras que os homens contam, do Veríssimo. Tenho dores na barriga de tanto rir. Por isso só leio em casa, onde não tenho mais imagem nenhuma pra cuidar.

    "- Nenhuma delas tem muita coisa que as recomende - replicou ele -; são todas tolas e ignorantes, como as meninas sempre são; mas Lizzy é um pouco mais esperta que as irmãs.
    - Sr. Bennet, como pode insultar assim suas próprias filhas? Você adora aborrecer-me. Não tem pena dos meus pobres nervos.
    - Engano seu, querida. Tenho muito respeito por seus nervos. São meus velhos amigos. Ouvi você mencioná-los com muita consideração nos últimos 20 anos, pelo menos.
    - Ah, você não sabe como eu sofro!"

    Depois da Elizabeth, o pai dela é o meu personagem preferido de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen!

    "No escuro, finalmente, alguma coisa começava a acontecer. Uma voz cantava. Muito longe. Nem mesmo era possível precisar a direção de onde vinha. Parecia vir de todas as direções, e Digory chegou a pensar que vinha do fundo da terra. Certas notas pareciam a voz da própria terra. O canto não tinha palavras. Nem chegava a ser um canto. De qualquer forma, era o mais belo som que ele já ouvira. Tão bonito que chegava a ser quase insuportável."

    As crônicas de Nárnia - O sobrinho do mago, de C. S. Lewis. Mais especificamente na criação de Nárnia.


    Se um dia eu conseguir provocar em alguém metade da sensação que eu tenho ao ler o que essas pessoas escreveram, e se eu conseguir empolgar alguém com as minhas palavras tontas organizadas numa frase, não vai ter nada que eu não seja capaz de fazer.
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  13. domingo, 8 de maio de 2011



    Não sei a de vocês, mas a minha merece um post.

    Minha mãe me ensinou a:

    - Não dar ataque na rua gritando e esperneando no chão dizendo: ME DÁ, EU QUERO, COMPRA, ME DÁ, EU QUERO. Eu nunca fiz isso. Minha irmã nunca fez isso. Eu já vi crianças fazerem isso e juro por Deus como tive vontade de pegar a tonta da mãe pela mão e dizer: Dá um cascudo nesse piralho chato uma única vez, su
    a tonta, e ele nunca mais faz isso.

    - Prezar pela minha integridade física. Eu fui uma criança do tipo impossível. Mas nunca tive a ousadia de responder minha mãe. Nunca. Nem
    tenho hoje. Eu não grito numa discussão. Eu argumento, mas nunca nunca grito. Porque fui ensinada desde cedo que se fizesse isso podia dar adeus aos dentes que tinham na minha boca.

    - Obedecer. Mãe falou, pai falou, vó falou, professora falou, dê seus pulos, se vire e obedeça. Ou isso, ou "vá buscar meu chinelo, LIGEIRO." É, na minha casa era o esquema "vá e monte sua forca."

    - Estudar. Isso eu aprendi em parte, mas ela bem que me ensinou. Recuperação = não sei quantos milhões de dias sofridos sem:
    a) computador
    b) TV
    c) gibis
    d) meus livros
    e) brinquedos
    Com permissão unicamente p
    ra estudar.
    P.S.: Eu ficava tão enlouquecida que pegava meu livro de gramática pra ficar lendo os textos e as tirinhas que tinham nele. Sério.

    - Ter palavra. E é uma coisa que tá tão presa a mim que eu acho que só conseguiria descumprir se me ameaçassem com ferro em brasa. Eu minto. Como todo mundo. Mas se eu disse: Prometo, ou Acredite em mim, ou Dou minha palavra, mesmo que seja no meio de uma brincadeira ou de um jogo ou da presepada mesmo, eu não consigo não fazer.

    - Não ser enjoada. Ninguém gosta de pirralho mimado, abusado. E minha mãe me dizia isso desde sempre. Lembro mesmo: "Se você ficar com besteira, sendo chata, quem é que vai querer levar você pra passear? Quem vai querer brincar com você? É só ver ****** (exemplo de pirralho chato), ninguém quer brincar com ele (e era verdade)..."

    - Ser educada. Olha, eu posso ser grossa como for, mas eu sei dizer por favor, e obrigada, tá? Na minha família, pirralho que não dizia por favor, podia espernear e ficava ser sobremesa, ou qualquer outra coisa. A regra é clara.

    - Pedir desculpas. Tem gente que morre e não faz isso. Mas minha mãe me arrastava até quem quer que fosse e dizia: Peça desculpas, vá. E eu pedia, mesmo com raiva. Hoje, eu não tenho problema nenhum em ver meus erros, ou pedir desculpa a alguém. Minha mãe me ensinou desde cedo que isso não é humilhante, não é vergonha, é caráter.

    E esse post não é pra dizer que eu sou a filha perfeita. Longe de mim. Levei muita surra merecida quando era criança, merecida mesmo, porque eu era atacada demais. É pra dizer que minha mãe foi mãe de verdade. Me ensinou essas coisas, que pra mim, são básicas, simples, que todo mundo devia saber.
    A minha mãe é mãe de verdade, porque hora nenhuma ela disse pra mim que o mundo ia ser bonzinho e passar a mão na minha cabeça, dizendo: "Mas olha, como você é simpática e gentil, tome uma vida boa." Mas me ensinou também que não é porque a vida é dura com a gente que a gente não pode ser bom com os outros. Minha mãe me ensinou que já tem merda suficiente nesse mundo pra as mães ficarem criando pequenas merdinhas irritantes e escandalosas pra ficarem andando pelo planeta e fazendo a vida de todos ainda mais difícil.

    Minha mãe também tem uma pá de defeitos. Que nem todo mundo. Mas ela tem uma qualidade que eu acho indispensável pra alguém que tem a coragem de se meter nessa de ser mãe: Ela sabe ser mãe.

    E soube me ensinar a ser gente.

    VALEU MÃE

    Feliz dia das Mães, mas só pras que sabem como ser uma.
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  14. sexta-feira, 29 de abril de 2011

    Muita ousadia de minha parte falar desse assunto, mas como foi um caso extremo, acho que to liberada.

    Era uma tarde nublada, clima agradável, dia sossegado.
    Estava na universidade e fui fazer um favor pra umas amigas: tirar xerox pra elas.
    Sim, eu estava de muito bom humor.
    Fui tranquilamente caminhando até a xerox, olhando as árvores, ouvindo os passarinhos cantarem, e respirando o aroma da natureza. Quase a Branca de Neve, só que sem cantar com os animaizinhos.

    Cheguei na xerox, mais próxima. 6 centavos. Uau, um centavo mais barato que as outras, legal. Parei no balcão. Tinha uma moça tirando xerox de um livro, outra escorada no balcão do lado de dentro, meio de lado, conversando com ela, e um moço varrendo o lugar.
    Esperei sossegadamente alguém me dar atenção.
    Pensei: "Acho que vou ter que esperar a moça terminar esse livro." Tudo bem, eu não estava com pressa. Não estava com calor, podia até me sentar.
    A moça que copiava o livro me olhou por cima da outra e perguntou: Diga?
    - Eu queria duas copias disso aqui, por favor.
    A moça que copiava olhou para a outra e fez: Vai, fulana.

    Certo, eu devia ter entendido.
    A Fulana trabalhava ali.
    Fulana estava a menos de meio metro de mim.
    Fulana me viu, não é possível!
    FULANA ME IGNOROU.
    Certo, parte do meu bom humor de Branca de Neve foi embora.

    Fulana pegou meu texto.
    Deixa eu descrever Fulana.
    Pouco mais alta que eu. Muito pouco. Cara de enjôo constante. Por algum motivo que eu não sei explicar, boca dela estava sempre levemente aberta. Tive medo de ela babar no meu texto. Uma pança grande, uma blusa curta. Combinação desagradável. Vejo pessoas com panças muito menores que evitam passear com as suas de fora assim. Um fone no ouvido. Ela cantava.
    Forró.
    Música internacional transformada em forró.
    Nem vou comentar o que penso sobre isso.

    Enfim.
    Fulana pegou meu texto. Falou com o moço que varria, com uma voz que parecia uma gosma escorrendo lentamente. Uma gosma verde:
    - Fulaaano, essa maquinan tá ocupadan?
    Fulano olhou pra ela impaciente.
    A máquina estava ligada. Xerocando montes de folhas. Dava pra ver aquilo.
    EU TAVA VENDO AQUILO.
    Fulano grita:
    - Tá sim, minha felha, e pode desistchir, viu? Vai usar a manual que essa daí tá fazendo cinco cópias, e começou agora, tá?

    Fulana remexeu a língua dentro da boca. Olhou para a máquina de xerox manual, antiga, no canto. Fez uma cara de abuso ainda maior.
    Quase vomitei nessa parte.
    Sério, aquela mulher inspirava ânsia de vômito.
    A pança mole, a voz pastosa, a boca que não fechava.
    E fora que todo esse diálogo já rendia uns bons 10 minutos.
    O clima parou de parecer tão agradável.

    Fulana resolveu que não ia usar a máquina manual. Apoiou-se no balcão e começou a ler meu texto.
    JURO.
    Começou a ler Freud.
    Luto e Melancolia, de Sigmund Freud, ao som de Luan Santana ou sei lá que merda era aquela.
    Surreal.
    Odeio essa palavra mas é a única que expressa minha sensação naquele momento.

    Eu tava tão perplexa que resolvi esperar pra ver no que ia dar.
    Mais ou menos como um experimento.
    Quantas eras Fulana levaria para tirar minha xerox?

    Fulana cansou de ler meu texto. Fulana resolveu cantar. Fulana cantava 'meu anjo azul, blablabla'.
    Acreditem ou não, Fulana esperou as CINCO cópias terminarem na máquina automática, porque aparentemente, Fulana ou não sabia usar a manual, ou tava com preguiça demais pra isso.
    Provavelmente a segunda opção, senão ela não trabalharia numa xerox, certo?

    Bom, Fulana foi tirar minha xerox afinal
    Fulana volta, com o texto original e UMA cópia na mão.
    Comecei a gargalhar por dentro, pelo ridículo da situação e por impaciência também.
    - Er... Moça... Eu pedi duas cópias.
    A mulher que ainda tava xerocando o livro olhou pra mim, com olhar de: "Eu sei, é terrível".

    Fulana sorriu, de uma maneira molenga:
    - Ah, mulher, era?
    Olhou para a máquina automática, já ocupada de novo.
    Pânico.
    Ela não vai esperar de novo, NÃÃO!
    - Então vou tirar tua xerox na manual, senão tu vai ficar aqui pra sempre he he he.
    Suspirei de alívio, discretamente, e dei um sorriso sem graça.

    Fulana volta com a minha cópia. Diz:
    - R$ 2,10, as duas.
    Entrego uma nota de 10.
    A mulher olha para a nota.
    Um medo súbito de que ela entrasse em pane e ficasse ali, travada na conta, pra sempre, tomou conta de mim.
    Fulana tira, lentamente, uma calculadora debaixo do balcão.
    Alívio.

    Só pra resumir, ela levou quase o tempo de tirar a xerox pra me dar o troco.
    Saí de lá em desespero.
    Branca de Neve é o caramba, meu humor tava mais pra qualquer coisa perto de uma daquelas pessoas que fugiam do Pânico, de tanto medo que eu tava de a lerdeza da Fulana ser contagiosa.

    p.s.: morro de agonia de lesma, arg.



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  15. quinta-feira, 7 de abril de 2011

    Não é um post, não é uma história. É um momento babaca.

    Acho que todo mundo devia dedicar alguns momentos da própria vida pra aprender a não fingir.
    Eu tenho mania de tentar fingir, mas não consigo.
    E eu achava que isso era um defeito.

    Fingir, no meu caso, não funciona. Nunca vai convencer ninguém.
    Porque eu falo demais, então todo mundo sabe quem eu sou.

    Já me disseram que eu era "fria e calculista", e que eu nunca falava sobre mim, sobre as minhas coisas, sobre o que eu tava pensando. Eu não acredito nisso, sinceramente. É muito raro que eu consiga guardar uma coisa minha. Tudo que me acontece, ou que eu penso, eu preciso contar pra pelo menos uma pessoa. Ou escrever no blog.

    Calma, deixa eu me organizar:
    É aquela velha história clichê de fingir ser alguém que você não é pra agradar os outros. Não funciona comigo. E eu tinha raiva de não conseguir fazer isso. De não saber calar minha boca. Ainda tenho. Mas desisti de tentar ser outra pessoa. Eu nunca conseguia mesmo.

    Uma vez, quando eu tinha 11 anos, minhas amigas resolveram que estavam cansadas de ser criança.
    Deixa eu dizer que, naquela idade, esse conceito não entrava na minha cabeça. Eu só tinha 11 anos. O que aquelas meninas queriam ser, pelo amor de Deus?
    Naquele tempo, no colégio, a gente passava o intervalo:
    a) Passando trote no orelhão
    b) Jogando qualquer coisa
    c) Brincando de compasso
    d) Arrancando flores do jardim e pingando aquela seiva nas pálpebras das outras e dizendo que a pessoa pra quem ela olhasse ia se apaixonar por ela, e rindo quando ela acreditava.
    e) Subindo no muro e gritando: "Ei laranja, né tu não, bagaço" pra quem passasse na rua.

    Mas elas não queriam mais. Queriam ser como as meninas das turmas mais pra frente da nossa. Ou mesmo como aquelas da nossa turma que a gente costumava zoar internamente por serem pequenas aprendizes de prostitutas, mas por quem os meninos eram loucos. A gente não se incomodava com aquilo.
    Bom, pelo menos eu não.

    E quando elas quiseram agir daquele jeito, elas sabiam que eu não concordaria. E não me contaram.
    Só passaram a me evitar.
    E quando eu perguntei o que estava acontecendo, foi que me disseram.
    Se eu não tivesse passado um dia inteiro (e na época, pra mim, isso era muito tempo) pra descobrir o que elas tinham, o meu impulso seria rir.
    Mas elas estavam falando sério.

    Eu deveria ter rido. Sei que deveria.
    Não sei o que teria acontecido se eu tivesse agido como tive vontade. Talvez o resultado não fosse tão bom (elas cansaram da tentativa e voltaram ao normal em, no máximo, dois dias depois). Mas hoje eu não ia olhar pra trás e lembrar daquele episódio como o momento em que eu me senti mais babaca na minha vida inteira.

    Eu concordei.

    Cada fibra do meu ser gritava pra eu deixar de ser imbecil, e não fazer aquilo.
    Mas eu não fiz.
    Pensei: Bom, talvez elas estejam certas. Talvez eu seja só muito tonta e infantil, e deva crescer então.

    Incrível como essa palavra me persegue.
    In-fan-til.

    Eu sempre fui considerada infantil.
    Pelos outros.
    E acabei me considerando assim também.

    1. Eu era infantil porque aos 13 anos, nunca tinha beijado. Então eu fingia já ter, pra ninguém pensar assim.

    2. Era infantil porque não usava maquiagem, mesmo com 14 ou 15 anos.

    3. Infantil porque pediam pra ficar comigo e eu dizia não.

    4. Porque adoro desenho animado.

    5. Por causa das coisas que eu leio.

    6. Dos jogos.

    7. Da coisa da maquiagem, que me persegue ainda hoje.

    Entre outros motivos.
    Mas vou falar a verdade:

    Eu tenho 20 anos, eu assisto desenho animado, eu jogo Sonic no computador, disputo BattlePaint como se minha vida dependesse disso, leio gibi da Mônica quando tou entediada, tenho medo de andar pela casa quando todo mundo já dormiu, ODEIO me arrumar e me incomodo, sim, com o que pensam de mim.

    Mas uma coisa eu aprendi nesse meio tempo:
    Eu prefiro fingir que não me incomodo, e ser eu como eu quiser, do que fingir ser de outro jeito, pra não me incomodarem por isso.

    Uma pessoa me disse uma vez pra eu tomar cuidado, porque quando se chega nos 20, as pessoas começam a supor que se é adulto.
    Acho que ele sabia do que tava falando.


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  16. sexta-feira, 1 de abril de 2011

    Certo, agora todo mundo sabe a minha altura.
    É.

    Míseros 1m e 54cm.
    Um metro e meio, pra ficar prático.
    Sei o que vão dizer: Mas você desse tamanho e ainda fica desprezando 4cm inteirinhos?
    Já me frustrei muito com pedaços de centímetros que me diziam que eu tinha e depois sumiam misteriosamente.
    Acho que eu tava no 2º ano quando me medi na academia: 1m e 53 e meio.
    Ótimo, sinto-me enorme.
    No 3º ano, 1,55m.
    Juro como me senti monstruosamente imensa. O chão até parecia mais distante.
    Foi emocionante.
    Daí, no começo desse ano, na academia, fui me medir. Um metro, e cinquenta e quatro centímetros.

    Certo.
    Não tou nem aí pra quem pegou meu centímetro, MAS EU QUERO ELE DE VOLTA.

    Olha, eu não tou reclamando por ser baixinha. Na verdade, eu até gosto.
    Eu pareço um hobbit, se você ignorar os pés e as orelhas. Mas todo o resto, aqui estou eu. Um hobbit. Pequena, de cabelos cacheados, e tudo mais. Não me incomodo com isso.
    Mas veja bem, você também iria surtar se começasse a DIMINUIR. Ninguém quer diminuir. Sabe por quê? Porque vai saber se você vai simplesmente sair encolhendo até sumir?
    EU NÃO QUERO SUMIR.

    Mas ser pequena é bom.
    Tem um cara que pega o mesmo ônibus que eu com frequência. Ele é tão alto, e tem pernas tão compridas que sempre senta na cadeira do corredor, meio de lado, porque as pernas dele simplesmente não cabem no espaço entre os bancos.
    Eu sento na cadeira da janela, com as pernas cruzadas e ainda escorrego no banco pro meu joelho encostar na cadeira da frente e eu poder me apoiar, pra não escorregar até a morte no chão do ônibus.
    Isso é uma vantagem pra mim.

    Por outro lado, eu preciso ficar na ponta do pé pra puxar a cordinha.
    É.
    Aqueles malditos botões NUNCA funcionam.
    Isso é muito injusto porque eu aposto que qualquer dia vou ficar na ponta do pé, perder o equilíbrio e cair para a morte.

    Certo, tem mais coisa boa.
    Eu sempre posso me esconder na sombra dos outros.
    O sol de 40ºC torrando os circuitos, vocês todos lá sofrendo, e eu escondida na sombra de algum amigo. Tem que ser de amigo, porque eu preciso me apoiar nele, pra aproveitar a sombra toda. Mas funciona.

    Porém, se um dia eu precisar alcançar um remédio, ou alguma coisa alta numa prateleira pra salvar uma vida, pode ter certeza, é game over.
    MAS, se eu for andar de navio um dia, quando gritarem MULHERES E CRIANÇAS PRIMEIRO, eu vou ter dupla chance de sobreviver. Porque se os botes de mulheres ficarem lotados, eu posso entrar nos botes para crianças.
    Não sei se isso ia funcionar, foi só uma coisa que eu pensei.
    Ignorem.

    Eu sempre perco aquele jogo dos polegares.
    Sabe, aquele que você segura a mão da pessoa e tem que segurar o polegar dela com o seu. Meu polegar é pequeno demais pra segurar o polegar das pessoas normais. E é muito fácil de ser segurado pelo mesmo motivo.
    Ou talvez eu seja só descoordenada e precise de uma desculpa.
    Enfim.

    No colégio que eu estudava quando era criança, antes de começar a aula, a gente fazia fila na quadra.
    As filas eram divididas por série, e organizadas do menor para o maior.
    Adivinha quem foi a primeira da fila desde que aprendeu a andar e foi pra escola, até a quinta série, quando pararam com aquela coisa de fila?
    É.

    Adivinha quem sempre teve os seguintes apelidos:
    Formiguinha (como se não fosse o suficiente ser um inseto, era no diminutivo), Tampinha, Tamborete de Forró (detestava esse mais que tudo), Toco (porque além de tudo, eu era grossa), Rodapé (eles tinham preguiça de dizer "pintora de rodapé)...
    Isso sem mencionar as piadas tipo: Como anda o clima aí embaixo?
    Ha ha, hilários.

    Mas eu não ligava muito.
    Ser pequena é bom.
    Ray dizia que era terrível encontrar um namorado que fosse maior que ela.
    Bom, nunca tive esse problema, se é que isso conta.

    :]
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  17. terça-feira, 29 de março de 2011

    Situações em que você não sabe o que falar:

    Quando você está na parada de ônibus, cansada e com calor, e alguém te pergunta a hora. Você olha pro céu, pergunta internamente o que você fez de errado dessa vez, olha o próprio pulso e diz: Er, to sem relógio. E completa em pensamento "Caso você não tenha visto".
    Nada demais. Se a pessoa não te olhasse de volta com cara de quem diz: "Não foi isso que eu perguntei" e dissesse: Certo, mas que horas são?
    E você não sabe o que falar.

    Situações em que você não sabe que cara fazer:

    Quando você entra no ônibus e o cobrador te olha estranho. Ele te olha assim, como quem pergunta: "Ei, você me conhece, não vai me cumprimentar?"
    Ele não fala uma palavra, mas dá pra ler isso tranquilamente na expressão dele. O que significa que, se você não for falar nada, no mínimo tem que fazer alguma cara pra ele.
    Você tem certeza de que não o conhece.
    Na verdade, ninguém que você conheça é cobrador de ônibus. Então, por que você conheceria ele?
    Depois de refletir sobre o impasse, você resolve que não sabe que cara fazer. E vai embora, perplexa.

    Situações em que você não sabe como não bater em alguém:

    Quando sua irmã mais nova toma posse do seu corretivo (o de maquiagem, não o de papel) e leva pra escola, no seu primeiro dia de aula, quando tem não uma nem duas, mas cerca de milhares de espinhas na sua cara.
    Juro.
    Nem parecem espinhas. Parece que viviam animais selvagens em miniatura debaixo da pele do seu rosto e subitamente todos eles resolveram sair e brotaram na sua cara. Certo, quem quer aparecer no primeiro dia do semestre com cara de "animais selvagens brotaram aqui".
    E então você esconde aquilo da sua cara com SOMBRA BEGE e vai pra aula. E quando liga para aquela criatura miserável que é sangue do seu sangue, ela responde: "Tá bom, foi mal, tanto faz, tchau."

    Situações em que você não sabe porque ainda tenta:

    Gabriella vira pra mim, no meio da aula e diz: 77 divido por 16. Acho que era isso.
    Olho pra ela chocada.
    Primeiro penso: Por que ela tá fazendo conta de cabeça?
    Depois: Por que ela pensa que eu posso ajudar??
    Papel e caneta. Armo a continha, como aprendi na 2ª série.

    E pega o celular e faz a conta na calculadora, como devia ter feito de primeira.

    Situações em que você não consegue decidir o que faria "se você só tivesse uma bala?".

    1. Taiane
    2. Determinado(a) professor(a)
    3. Determinado(a) monitor(a) que sorri demais
    4. Gabriella que dá ataque.
    5. Lorena que te belisca.
    6. O vizinho que ouve brega de madrugada no volume máximo.
    7. Taiane.
    8. O despertador.
    9. Coloca tudo numa fila, que pelo menos os do final se machucam um pouco.

    Nunca tive bom humor, beijo.
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  18. sexta-feira, 18 de março de 2011

    Você sabe que o seu dia vai dar errado quando você é assaltada às 7:30h da manhã.

    Veja bem:
    Visualize uma parada de ônibus. Com umas cinco pessoas. Eu estava levemente afastada, mas só porque a parada propriamente dita estava toda no sol. Eu fui só me esconder numa sombra.
    Antes que digam que eu sou estúpida, naquele calor,
    se eu tivesse ficado no sol teria tido queimaduras de terceiro grau e morrido antes do ônibus aparecer. Logo, ser assaltada foi lucro.

    Eu já tava ali há uma boa meia hora.
    Estava com raiva o suficiente pra xingar a mãe de quem me olhasse torto.
    Quando a criatura veio andando pelo meio das pessoas na parada, em nenhum minuto eu achei que ele fosse ameaça.
    Quando ele parou do meu lado, pensei que ia me pedir dinheiro.
    Eu tava pronta pra tirar o fone de ouvido e rosnar: Meu filho, eu realmente tenho cara de quem tem dinheiro? Sério que tenho??
    Mas só tive tempo de tirar o fone e ouvir o fim da frase:
    - ...o celular!
    - Anh? - respondi, muito inteligente.
    - Me dá o celular, rápido.

    Não sei vocês, mas nessas horas (e somente nelas) minha cabeça funciona muito rápido.
    Num segundo eu pensei:

    1. Ele é do meu tamanho. E mais magro. Mas eu apanharia dele tranquilamente.

    2. Não deve tá armado, ainda não vi nada, mas não vou arriscar.

    3. Nenhum dos miseráveis na parada de ônibus tá olhando pra cá.
    4. Não vou pedir o chip, ele ta com pressa, vai perder a paciência. E mesmo se não tiver armado, vai me dar um murro só pelo contratempo. Eu daria.

    5. PelamordeDeus, meu celular não vai render nem 15 reais pra ele, ele que leve...

    Entreguei o celular.
    Com sangue no olho.
    SETE E MEIA DA MANHÃ, issé hora de assaltar uma pessoa?
    Eu já tinha acordado de SEIS E MEIA, isso ainda não foi castigo o suficiente?
    Seja lá o que eu tenha feito nessa vida.

    E lá sei foi meu chip da tim. Ontem mesmo alguém me ligou por engano nele, e ficou puxando conversa. Foi tão engraçado, e eu fui até dormir feliz porque já tinha história pro blog (que eu escrevi depois). E o meu "amigo do engano" disse que ligaria outra vez, então eu já estava esperando uma série completa. Mas o pivete LEVOU MEU CHIP.

    Enfim, ele segurou meu braço, apontou pra um lado e falou:
    - Ele foi pra lá, viu?
    E saiu andando pro outro lado.
    Entendi facilmente o que ele quis dizer: "Cala a boca, vai pra lá e não olha pra trás".
    Foi o que eu fiz, frustrada.

    Mas em menos de 10 segundos, o moleque passa correndo por mim, e um homem atrás dele, gritando: PEGA ELE, PEGA!
    Não me pergunte de onde eles saíram. Aparentemente, o moço do PEGA ELE e mais dois estavam bem mais atrás de mim, o tempo todo, um deles vendendo cachorro quente pros outros, e quando entenderam a cena, vieram me ajudar.

    O moço do cachorro quente veio me dar uma BRONCA. Sério.
    - Minha filha, era pra você ter dado o telefone não, era pra ter chamado a gente...
    - Mas eu não sabia que você tavam ali, moço...
    - Mas era pra ter chamado!
    Percebi que ele não ia entender o conceito de alguém não perceber a presença dele. Deixei essa parte de lado e disse:
    - Era...

    Um outro moço, num buggy, parou na calçada e disse:
    - O pirralho te roubou? (acho absurdo considerarem um pirralho, só por que ele tinha uns 5cm a menos que eu)
    - Foi, levou o celular...
    - Vou pegar ele - e saiu cantando pneu.

    A essa altura o meu ônibus tinha aparecido e levado todo mundo que estava na parada dentro dele. Menos eu.
    Eu fiquei porque tinha esperança de que um dos meus heróis voltasse com meu chip da tim. Ainda esperei um pouco, levei mais bronca do moço do cachorro quente. Até que outro ônibus apareceu e eu deixei pra lá.

    Fui embora, frustrada, com saudade do meu chip.
    Façam favor de me dar afeto, que eu tou precisando.

    :*
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  19. quinta-feira, 10 de março de 2011

    Escrevi esse texto há muito tempo atrás, mesmo. Acho que há uns 3 ou 4 anos. Muito antes de começar com o blog. E como ultimamente eu tava meio difícil com a inspiração, resolvi postar aqui.

    -

    Centro de cidade. Época de Natal, as pessoas passando de um lado para o outro nas calçadas, como se seus compromissos fossem sempre os mais importantes.

    Sentado no chão, um menino com a mão estendida segurando um boné velho, parecia não dar a menor atenção a nada ao seu redor. Afinal, que diferença fazia? Natal para ele não tinha nada daquela alegria que as pessoas pareciam ter na televisão. E elas não ficavam mais generosas também. Tudo com o que elas pareciam se importar era em chegar primeiro nas lojas e conseguir os menores preços.

    O barulho, a correria e o calor sempre os mesmos. Talvez um pouco mais devido à quantidade de pessoas. Tiago já havia passado a manhã inteira de pé no sinal. Agora, quase uma hora da tarde, ele se sentava para descansar um pouco. A barriga doía. Uma dor de fome já conhecida. Tentou ignorar.

    Alguém parou na sua frente. Tiago levantou os olhos. Era uma moça, parecia ter entre 18 e 19 anos. Bonita, vestida com roupas simples, porém novas e limpas. Tinha os cabelos compridos, levemente cacheados nas pontas e os olhos de um castanho que brilhava a luz do sol e pareciam ter esperado a vida inteira para vê-lo. Em todos os seus 8 anos de vida, nunca alguém tinha olhado para ele daquela maneira:

    - Oi... – disse ela, hesitante – Meu nome é Janaína, e o seu?

    - Tiago – respondeu olhando desconfiado.

    - Oi Tiago. Você já... já comeu hoje?

    Ele balançou a cabeça, dizendo que não. Janaína parecia ter levado uma pancada antes de responder. Olhava para ele com um carinho que ele nunca tinha visto antes em outra pessoa.

    - Então... Não quer vir comigo? A gente ta preparando um almoço pra todo mundo por aqui, de graça. O que acha?

    Os olhos de Tiago brilharam com a menção da palavra “almoço”. Há um bom tempo ele não tinha certeza do que era isso. Tudo o que comia eram as poucas coisas que conseguia comprar com o dinheiro que ganhava pedindo. Ou o que sua mãe trazia quando chegava tarde da noite em casa, do trabalho.

    Janaína estendeu a mão. Foram andando até uma casa simples, pequena, onde Tiago já havia visto uns movimentos estranhos de pessoas entrando e saindo. Nesse dia, uma fila imensa tinha se formado dentro da casa. Parecia ser ainda maior porque ia até o portão e algumas pessoas já estavam na calçada.

    - Fica aqui ta? Não sai daí que eu vou buscar uma ficha.

    Tiago ficou na fila, enquanto Janaína entrava na casa chamando por alguém. Ele nem se importou em perguntar o que seria a tal ficha. O cheiro bom da comida prendia sua atenção. A fila andava bem rápida e quando Janaína voltou, já estava bem perto da sua vez. Ela esperou, enquanto ele se servia e foram sentar em uma das mesas distribuídas pelo terraço.

    Era um almoço simples. Arroz, feijão, um pouco de verdura e um pedaço de carne. Mas para Tiago era um banquete. Ele comia com vontade, afinal, nunca sabia quando seria sua próxima refeição. Janaína esperou pacientemente que ele terminasse e só então começou a conversar com ele:

    - Hum... Tiago? Eu posso te fazer umas perguntinhas, sobre você, só pra eu anotar aqui?

    - Você num vai cobrar não, né, moça? Porque eu num tenho dinheiro e a senhora disse que num pagava, por isso eu vim e...

    - Calma, não, não é pra cobrar não... É sobre sua vida. Umas informações, pra ver se a gente pode te ajudar.

    - Ah, certo. Então ta...

    Janaína fazia as perguntas e anotava. Foi aos poucos descobrindo que Tiago vivia em um barraco muito pequeno, em uma comunidade próxima dali, com mais 4 irmãos. A mãe era quem sustentava a casa. Pai, ele nunca havia conhecido. Um dos irmãos, o mais velho, mal aparecia em casa. E quando aparecia, “só dava dor de cabeça”. Era metido com os traficantes da favela e a mãe preferia que ficasse longe a viver em casa trazendo problemas e influenciando os irmãos.

    Ela ouvia o relato atenta. Percebendo os detalhes. Como as feições mudavam a cada pergunta. As mãozinhas pequenas gesticulando, deixando entrever calos, cortes ainda abertos e cicatrizes de uma infância maltratada e injusta. Janaína não conseguia parar de imaginar como, em uma mesma cidade, as pessoas cresciam de maneiras tão diferentes. Era difícil aceitar que aquela criança não pudesse ter tido as mesmas oportunidades que ela. E por quê? A pergunta sem resposta circulava em sua mente enquanto ouvia o menino falando.

    - ...E eu sempre quis saber ler. Ver o que tem nas placas, sabe? Eu fico só olhando as letras coloridas e brincando de adivinhar...

    Aquilo doía nela como uma facada no coração. Por quê? Isso era simplesmente injusto. Ela não era melhor que Tiago em absolutamente nada. Havia aprendido isso. Ninguém era melhor que ninguém. Todas as pessoas tinham valor. Então por que ela teve direito a uma escola, um pai, carinho, brinquedos, e ele não? Por que ela pôde ter uma infância e ele não? Ele não estava tendo. E aquele tempo perdido nunca voltaria.

    - ...passei uns 3 dias vomitando preto e minha mãe desesperada. Meu irmão, o maior, ficou com muita raiva porque mamãe disse que nem morta ela ia trabalhar e me deixar sozinho. Ele xingou muito ela dizendo que a gente ficava com fome por culpa dela. Mas isso não é verdade, porque minha mãe é muito boa...

    Uma infância destruída. Mais uma. Falta de oportunidades iguais para todos. Pobreza, fome. Uns com tanto, outros com tão pouco. Alguns com o suficiente. De quem era essa culpa. Ela não sabia. O sistema? Resposta muito vaga. Os governantes? São como as folhas levadas pelo vento. Desistiu de procurar culpados. Isso não resolveria o problema. E o que resolveria então?

    - ...até porque num é sempre que a mãe consegue trazer comida da casa da patroa dela pra a gente. E nem é todo dia que as moedas dão pra muita coisa. Dá pra um pouco de pão. Mas isso num mata fome do dia todo. E os moleques às vezes batem na gente e leva tudo...

    Soluções. Alguém poderia dar casa, escola, comida e carinho a essa criança. Ela mesma podia fazer isso. Um apertozinho no orçamento, mas valeria a pena. Infelizmente não era uma solução. A miséria não ia deixar de existir por causa disso. Quem sabe ela podia mandar um pouco do seu salário para ajudar aquela família. E daí? Quantas outras na mesma situação não continuariam a passar necessidades?

    - ...e meu irmão passou quase um mês inteiro sem aparecer em casa. Mamãe ficou louca de preocupada com ele. Num sei por que, ele só dá trabalho a ela. Depois ela foi descobrir que ele tava escondido porque tava devendo aos caras lá...

    Ela se perguntava até quando crianças iriam se envolver com drogas e com o tráfico por não verem outra opção de vida? Aquilo simplesmente não devia ser considerado uma opção. Muitas delas morriam antes de chegar à idade adulta. Os traficantes não perdoam ninguém. Isso era revoltante.

    Janaína olhou para aquela criança. A pele escura, marcada de cicatrizes, cada uma delas contando uma história. Os cabelos curtos, bem sujos, com um ou outro reflexo dourado de tanto sol. Rosto de menino, postura de homem. De quem já tinha visto o pior lado da vida e já havia entendido melhor que muitos adultos, o significado da frase: “Ninguém disse que a vida era justa”.

    Depois de preenchida a ficha, ela explicou a Tiago que alguém da instituição visitaria sua casa e tentaria ajudar em alguma coisa:

    - Mas, como dá pra você ver – disse ela – são muitas famílias. Talvez a ajuda seja pouca...

    - ...mas é ajuda. – ele completou, mostrando que compreendia a frustração de Janaína por poder fazer tão pouco. Eles se despediram e foram embora. Ela para casa. Ele para o mundo.

    Dentro do ônibus, no caminho de volta, uma lágrima descia enquanto relembrava uma conversa com um amigo há alguns dias:

    “- Por que você faz isso? – perguntou ele.

    - Você não se sente bem em ajudar?

    - Janaína, essa não é a questão. Você estuda, trabalha, e ainda perde tempo com uma ONG? Você sabe muito bem que isso não vai ser o suficiente. Não vai resolver o problema.

    - É, eu sei. Eu posso não acabar com a pobreza. Provavelmente não vou conseguir fazer com que todas as pessoas possam comer antes de dormir. Mas, no fim da minha vida, quero ter a consciência limpa, sabendo que eu tentei.”

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  20. domingo, 27 de fevereiro de 2011



    1. Eu tenho uma agonia miserável com swingueira. E antes que se ofendam e digam que eu sou preconceituosa com ritmos, nem é isso. Nada contra o ritmo. Não gosto, mas não odeio. O que não entra na minha cabeça é alguém conseguir ouvir aquilo, entender o que o cantor tá dizendo e não sofrer um ataque nervoso e cair no chão se contorcendo. Passa do limite da estupidez: é irritante.

    Isso tem o ano todo. Certo. Mas isso, junto com as marchinhas de carnaval, que também não me agradam, parecem invadir a cidade de um jeito absurdo. Vizinhos que nunca te incomodaram começam subitamente a achar que todo mundo gostaria de saber o quanto ele é entusiasta do carnaval e abre o porta malas do carro e libera geral.

    Só um lembrete: espero que seus tímpanos estourem como o meu fez quando eu mergulhei fundo demais numa piscina funda demais quanto tinha, sei lá, 11 anos, e fique borbulhando e você tenha que colocar remédios dolorosos nele.
    Aliás, não. Espero só que sua caixa de som exploda.

    2. Pessoas peladas.
    POR QUE, pelo amor do pai, as pessoas acham que só por ser carnaval, em janeiro-fevereiro-março é aceitável colocar mulher pelada na tv a qualquer hora? Quer dizer: eu tou aqui, de férias, na boa, assistindo O Homem Aranha em paz, daí dá o intervalo e BAM, uma mulher numa começa a sambar na minha cara, freneticamente, antes mesmo que eu tenha tempo de encontrar o controle remoto e tirar aquilo dali.
    Quer dizer, não tem só gente da minha idade assistindo desenho de manhã. Eu assisto porque sou uma estudante desempregada, ferrada e de férias. Mas tem criança vendo aquilo. E o que eu posso esperar de crianças criadas por uma sociedade que não esquenta que eles fiquem vendo gente nua loucamente?
    Sabe por que os filhos de vocês acham tranquilo trepar com 15 pessoas em dois dias e ainda contar pros outros? É porque desde crianças as pessoas colocavam gente PELADA no intervalo do HOMEM ARANHA fazendo eles acharem que, ah, nada demais ficar pelado/se divertir com pessoas peladas sem critério nenhum, né?
    Porque tem uma época do ano em que as pessoas se aglomeram na rua pra isso!
    Aí depois me aparecem governos tentando impedir que doenças sejam espalhadas e mais crianças sejam geradas sem nenhum minuto de reflexão sobre o assunto, como se fosse o suficiente. Não passa pela cabeça de ninguém enfrentar a raiz do problema que é as coisas que vocês deixam colocarem na cabeça dessa pirralhada, pra começo de conversa?

    Gente, vocês querem ver galera pelada?
    PROBLEMA DE VOCÊS.
    Internet tá aí pra você ver a porcaria que você quiser sem incomodar os outros.

    Eu acho uma das coisas mais estúpidas do mundo toda essa banalização que o carnaval faz com o corpo das pessoas. Como se todo mundo precisasse ficar vendo gente nua o tempo inteiro e quem não achar isso SUPER interessante não é alguém normal. Não sou ingênua pra achar que não acontece no resto do ano. Mas o carnaval gira em torno disso. De bunda de mulher. E se me permitem dizer, eu acho um tema meio bobo pra uma festa que mobiliza o país inteiro durante tanto tempo.

    3.Álcool.
    Certo, tem o ano inteiro.
    Mas algo na aura do carnaval faz com que as pessoas bebam e sejam ainda mais imbecis.
    Não me incomodo quando tá naquele ponto que me faz, por exemplo, ver uma mulher de seus 40 anos de idade, usando uma saia havaiana e uma blusa amarrada, dançando alguma coisa indefinida na calçada, na frente de um carrinho de cd pirata. Eu não ligo. Eu acho ótimo ter as coisas estúpidas dessas pessoas pra comentar aqui. Inclusive, tou numa escassez de história ridícula (dos outros) que vocês nem imaginam.

    Não entra na minha cabeça que as pessoas achem divertido beber 15 latas de cerveja e sair andando como se tivesse algum problema nas pernas ou no cérebro. Não tem graça. Nem Coca-cola que, vamos ser honestos, veio do céu, carregada por anjinhos com harpas, a gente bebe 15 latas. Imagina uma coisa que parece mais com xixi?
    Outra vez, repito: cada um tem o direito de cagar na própria existência o quanto quiser. Mas deixe os outros.

    Pra comprovar meu raciocínio, digo só uma coisa:
    Quando alguém bêbado tirar a vida de alguém que você ama, porque achou que não tinha problema encher o rabo de cana e dirigir, você vai entender o que eu digo.

    4. Ala Ursa.
    É. Eu tinha medo daquilo.
    Hoje só me dá agonia.



    Quando eu era criança, sempre acontecia daquele mar de pirralho batendo em lata e berrando coisas incompreensíveis tocarem na campainha da nossa casa e soltar: TIA, DÁ DINHEIRO.
    Era só ouvir o batuque sem sentido nem ritmo nenhum, pra eu correr da sala pro meu quarto, ou enfiar a cabeça na almofada até eles irem embora.
    Eu não tinha medo do barulho. Eu não tinha medo da máscara de capeta do muleque.
    Eu tinha asco daquela roupa feita de saco plástico cortado, caindo em tiras, que eles usavam. Porque quando eu via aquilo, a única coisas em que eu conseguia pensar era: Deve tá quente ali dentro, aquilo deve grudar no corpo dele, deve grudar muito e quando ele tentar tirar não vai sair porque vai tá grudado e ele vai ficar preso e vai SUFOCAR E MORRER.

    E isso me dá horror até hoje.

    5. É feriado, e você pode viajar, mas não adianta, sabe por quê?
    Porque toda quina do país vira um pedaço do inferno.
    Cheio de gente bêbada e pelada, e música barulhenta, e cheiro ruim, e mais gente pelada, e mais gente bêbada, dançando swingueira, enquanto bebe e tira a roupa e se esfrega nos outros, pegando doenças, e espalhando herpes, enquanto bebe e dança swingueira, e não lembra onde deixou a roupa, nem se pegou dst, porque a música tava muito alta e ele tava bebendo e derrubou cerveja no outro que achou que era uma boa ideia tirar a roupa e sambar, e depois beber mais, e aumentar o volume da música porque tinha alguém ousado ali no meio que ainda CONSEGUIA PENSAR UM POUCO.

    -

    Desculpa, eu não ligo se você gosta de carnaval.
    Problema seu.
    É o meu blog.

    AH, obrigada painho, por ter mandado meu blog pro pessoal ler.
    E valeu Jair, pelos elogios. Painho me mandou seu email e, cara, nunca fiquei tão feliz por ter começado com esse blog.

    Obrigada, pessoas.
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