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  1. quarta-feira, 22 de dezembro de 2010



    Então, os homens viviam em cavernas?
    Certo. Caçavam seus próprios animais, plantavam sua comida e viviam felizes, em harmonia com a mãe natureza.

    Quando eu era criança, eu sabia conviver com ela. A natureza, quer dizer.
    Eu fui uma criança que não tinha medo de subir em árvores, entrar no mar na maré cheia, pular no mangue pra catar caranguejos, dentre outras coisas. Eu e a mãe natureza tínhamos uma boa relação. Com um ou outro desentendimento, o que gerou algumas das minhas cicatrizes ou me fez beber água salgada até sentir que, se eu morresse, minha carne já estaria devidamente temperada, mas no geral, éramos boas amigas.

    Até que, aos poucos, eu fiquei mais velha (dizer que cresci é muita ousadia) e fui deixando de me jogar no mato e na terra e comecei a ficar enfiada no quarto comendo um livro depois do outro, ou na internet, feito um inseto colado na lâmpada. E pelo que eu percebi, a mãe natureza se ressentiu disso.

    Domingo fomos pra a granja de uns amigos dos meus pais. Nós e os amigos deles, com seus filhos, que são meus amigos de infância. Um bom pedaço da minha infância se passou naquela granja, naquelas mesmas árvores, no rio, e naquela terra preta que gruda nos seus pés até parecer que te jogaram num tonel de óleo de motor. Eu devia prever o que aconteceria...

    Da última vez que fomos lá, no começo desse ano, eu pude perceber um leve ressentimento do universo por ter deixado minhas brincadeiras de criança pra ficar dentro de casa onde tudo é tão limpo e nada pode arrancar um dedo meu. Algumas pessoas diriam que foi apenas porque eu fiz uma coisa que tinha perdido o costume de fazer. Mas não foi. Foi o Universo conspirando contra mim de novo.
    Naquele dia, em janeiro, eu acho, fui jogar futebol na areia preta com os outros. Chutei algo, ou alguém e uma coisa obscura ocorreu com o meu dedo mindinho, e este ficou doendo o resto do mês ou mais.
    Foi o primeiro aviso. Mas eu não dei atenção.

    Nesta última vez, pelo jeito, minha ousadia foi grande demais.
    Quando a gente chegou na granja, dei de cara com um pé de jambo, lindo e maravilhoso, com frutas roxinhas e brilhantes, que eu não comia há, sei lá, séculos. Olhei pra Talita, ela me olhou, jogamos a dignidade pro alto e subimos no pé de jambo, como a gente fazia quando tinha 10 anos e só davam pela nossa falta na hora de voltar pra casa.
    Agora, penso na impressão que passei pro meu namorado. Ele não gostou do jambo. Herege.


    Jambos *---*


    Sei que passamos a manhã inteira naquela árvore específica.
    Eu devia ter percebido que uma merda muito grande ia acontecer. É verdade que eu comi jambo até achar que meu estômago fosse dilatar e eu fosse ficar roxa, como a menina do chiclete, da Fantástica Fábrica de Chocolates. Em compensação, ganhei MUITOS arranhões, Yuri derrubou (ou jogou, ainda não tenho certeza) um jambo na minha cabeça, e eu achei que ia cair muitas vezes.

    Vacilo meu.
    Quando se tem 10 anos numa granja, você fica a 5 metros de altura, em pé, em um galho assustadoramente fino, segurando-se em outro galho ainda mais assustadoramente fino, pra pegar uma fruta que, vai saber, você nem gosta tanto assim, e não sente uma colher de chá de medo de cair. Embora as chances disso acontecer sejam muitas. Mas você não percebe.
    Mas eu tive medo.
    Devia ter reparado naquele minuto que eu não tinha mais 10 anos, e que alguma merda GRANDE ia acontecer.

    A gente tinha acabado de almoçar.
    Depois que tudo aconteceu, eu pensei: De quem foi essa ideia imbecil?
    Sinto dizer, foi minha.
    - Talita, duvido tu subir até aquele galho (aponto o galho) daquele cajueiro (aponto o cajueiro).
    Talita me olha com a cara que ela faz quando eu digo alguma coisa absurda e ela fica rindo e pensando: Será que ela tá falando sério? Isso vai dar em merda, mas eu vou.
    Conheço essa cara. Depois dela, sempre alguém se ferra.

    Corremos todos até a árvore, como se a gente tivesse 10 anos e não, como eu, há um mês de fazer 20.
    Até chegar lá, alguém falou, enquanto a gente atravessava um campo de matos e pedras que furavam os pés: Vocês deviam ter vindo de sandália.
    Respondi, orgulhosa:
    - Subir em árvore de sandália? Putz, não dá. Isso não é nada, nem dói.

    Eu pagaria por isso.

    Yuri foi na frente, com aquele seu desespero habitual, subindo loucamente no tronco enorme do cajueiro. Segui atrás dele. Me arranhei, mas nem percebi. Grudei o olho naquelas coisas gigantes e pretas que saíam de um buraco no tronco. Por um minuto pensei:
    - Hm, isso vai atrapalhar.

    Não me pergunte em que momento aquilo aconteceu. Quando doeu, eu gritei. Doeu de novo e eu gritei de novo. Na terceira, eu nem senti. Desci da árvore, não me lembro como. Andei até a casa. Também não faço ideia de como cheguei lá, mancando. Tudo o que eu lembro foi de, já no chão, arrancar um daqueles monstros da minha perna, que me mordeu por cima da bermuda jeans, e sair andando.
    Quando cheguei na casa e me sentei, foi que reparei Bob do meu lado. Mas infelizmente, as coisas tão tavam muito claras. Eu tava concentrada em não chorar, não gritar e conseguir respirar, tudo ao mesmo tempo.

    AQUELE INSETO DO HELL mordeu/ferroou um dedo do pé esquerdo, a sola do pé direito e minha perna esquerda por cima do jeans. Levantei a bermuda e limpei o sangue da perna. AQUELE MONSTRO TIROU MEU SANGUE POR CIMA DE UM TECIDO JEANS?? Falta o que pra usarem aquilo como arma de guerra?

    O pior de tudo era respirar. Porque se eu respirasse muito fundo, dava vontade de gritar, ou fazer aqueles ruídos de dor. Os meus dois pés doíam como se alguém tivesse enfiado um espeto neles e cutucado.
    Encheram um balde com água e pedras de gelo. Grandes. Se você já enfiou um membro do seu corpo em um balde de água e gelo sabe que dói. Eu não senti aquela dor. Foi um alívio sentir o pé dormente porque a dor da mordida era menor.

    FORMIGA DO CAPETA.

    O problema é que o gelo não dura pra sempre. Quando tudo virou água, a dor voltou.
    Sei que enfiaram na minha boca uns dois comprimidos diferentes. Um deles era um anti alérgico, porque aparentemente minha perna tava ficando com uma mancha de uma cor assustadora e aquilo não podia ser um bom sinal.

    Agradeço a quem me forneceu o comprimidinho branco mágico.
    Bateu uma lombra maravilhosa. Me arrastei/fui arrastada pra um quarto com uma rede e dormi aquele sono que só um comprimido dopante pode te proporcionar. Ainda senti dores, mas o sono foi ótimo. Tive uns sonhos malucos mas não lembro deles. E se lembrasse, desculpa, acho que já me queimei o suficiente pra um post só.

    Resultado: o efeito milagroso passou, lá pras 7h da noite. Fomos pra casa e minha mãe comprou na farmácia um comprimido amarelo ainda mais forte e mágico.
    Dormi tanto que tive medo de não acordar na segunda feira.

    O que eu tiro desta experiência: Se isso tudo foi ressentimento, Natureza, VAI TRABALHAR TEUS RELACIONAMENTOS, porque é por isso que tão acabando contigo.

    Ou isso, ou eu ainda tou sob efeito das drogas.
    :*

    P.S.: Você não imagina o arrepio que aquela foto me dá.
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  2. 3 comentários:

    1. AlexGoblin disse...

      O.o

      Você foi atacada por insetos ou por aliens? Tem certeza que não haviam luzes intensas e computadores no lugar onde te deram os comprimidos?

      Não quero uma invasão de insetos alienígenas antes de terminar de construir o meu bunker, se você for uma hospedeira, precisa ser eliminada.

    2. Tuíla disse...

      Caraca, agora que você falou...
      RUN TO THE HILLS!!

    3. Rayza Resende disse...

      MEDOOOOOOOO! Como é que tu vai parar nesses cantos obscuros, heim? Seu lugar é em um salão de beleza, rapaz!
      E sim, jambo é MUITO BOM!