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  1. segunda-feira, 25 de outubro de 2010

    Adivinhe onde eu estava:

    a) no ônibus
    b) na parada do ônibus
    c) chegando na parada do ônibus
    d) correndo pra pegar o ônibus

    Acertou quem escolheu a alternativa a). Eu estava, que inusitado!, dentro do ônibus, voltando pra casa depois de uma manhã de sofrimento na universidade. Vinha de péssimo humor. Provavelmente, meu erro foi deixar o universo perceber isso.
    Uma pessoa de mal humor não pode ser deixada em paz, - pensaram - nem pode ter seu dia melhorado. Vamos mostrar a ela como as coisas sempre podem piorar!
    Então aconteceu.
    Tinha uma moça na minha frente. Ela tinha o cabelo ENORME. Enorme e fora de controle, se espalhava por todo o banco e se esparramava por trás, fazendo cosquinha no meu joelho. E eu não tinha pra onde me esquivar dele. Eu estava concentrada em fugir daquilo quando, sem que eu pudesse perceber, um cisco, vindo sabe-Deus-de-onde voou diretamente no meu olho esquerdo.

    Pulei da cadeira e soltei algo parecido com um guincho. O rapaz sentado do meu lado se assustou comigo, e se levantou. Me conforta acreditar que aquela era a parada dele em todo caso, e ele ia descer ali, quer eu tivesse um ataque ou não. Mas não consigo deixar de pensar que ele foi encorajado pelo meu pequeno surto, e que não se sentiu mal ao deixar o lugar.
    E eu não o culpo.

    Voltando.
    Aquela coisinha me acertou em cheio. Meu olho ardia. Eu tentei esfregar, mas só ardia mais. A dor me distraía de pensar em alguma solução mais lógica, e me impedia de parar de me comportar como uma louca.
    Pensei em pedir a Rapunzel na minha frente para soprar o meu olho. Graças a Deus tive presença de espírito para perceber que seria uma estupidez sem precedentes.
    Pensei em perguntar se alguém ali não teria, por favor, um pouco de água para me emprestar. Mas não seria higiênico. Sabe-se lá a procedência da água? Não se pede água a estranhos.

    Eu já não enxergava nada. Tudo estava embaçado, porque meu olho esquerdo lacrimejava demais, e o direito, provavelmente protestando, não trabalhava muito bem. Percebi minha parada se aproximando e desci sofridamente.

    A distância dali até a minha casa não é muita. Mas parecia uma viagem, especialmente pelo fato de que eu já não enxergava absolutamente nada. Chorava pelo olho esquerdo com se tivessem atropelado o cachorro que eu não tenho [não tenho coragem de citar os porquinhos da índia aqui, seria muito cruel], e a dor me fazia perder a noção de espaço.

    - MEU DEUS, essa porcaria vai infeccionar! Que merda será essa que caiu no meu olho? E se for um inseto? Não pode ser só poeira. No mínimo uma pedra. Cara, isso tá doendo muito! Ai, meu Deus, e se eu ficar cega? Deus, eu não posso ficar cega de um olho, eu não tenho coordenação motora nem quando posso usar os dois, imagina o desastre... *PUF - tropecei* Tá vendo??? Tá vendo?? Eu não consigo viver... *PUF - tropecei de novo* Ok, chega, já deu pra entender... *PUF - mais uma vez*...

    E foi assim minha caminhada até em casa, tropeçando a cada 5m mais ou menos, e cambaleando como uma bêbada. Me surpreendo como ninguém me parou pra perguntar se eu estava bem, se estava passando mal, se tinha levado um tiro na cara, e por que, pelo amor de Deus, eu estava chorando.

    Acho que a rua estava vazia.
    Não sei direito, porque não estava vendo muita coisa.

    Cheguei em casa, bati no portão.
    Bati outra vez.
    Esperei.
    Mas que merda, cadê o porteiro?
    Esfreguei os olhos. Vi uma mancha. Só podia ser ele.
    O porteiro me olhava confuso, provavelmente dividido entre o impulso de me perguntar se eu queria uma ambulância ou rir da minha cara.

    Entrei.
    Não queiram saber o terror que foi achar o chaveiro na bolsa, encontrar a chave certa, enfiá-la no buraco da fechadura e entrar em casa.
    Mas eu consegui.

    Corri até o banheiro e joguei água nos olhos. O ardor foi diminuindo, aos poucos. As coisas ficaram menos embaçadas. Olhei pela pia, procurando o inseto ou projétil que esteve no meu olho todo esse tempo. Nada. Nada digno de ser visto.
    Me olhei no espelho. Parecia uma vítma de sequestro, ou sobrevivente de um naufrágio.
    Triste.

    Mas espere...
    Eu consegui ver meu reflexo.
    O que só significava uma coisa: Tudo estava bem.
    Todo aquele desespero havia se resolvido da maneira mais estúpida possível.
    O universo só queria que sofresse um pouco.

    Lição do dia: Não ande de ônibus, enquanto puder evitar.
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