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  1. segunda-feira, 9 de agosto de 2010

    Gabi me lembrou, esse fim de semana, da história que eu não tinha terminado de postar.

    Segunda parte aqui.

    -

    Todos os amigos reunidos, conversando e comendo pizza na casa de Leo. Costumavam chamar de reunião de pizza. Todo mundo tinha preguiça de cozinhar. Pedir uma pizza era mais simples. Quem perguntasse a Allan qual o assunto, ele não se lembraria, mesmo tendo emitido uma opinião ou duas. Estava pensativo, distraído. Embora se esforçasse para não demonstrar. Sabia que perguntariam o motivo. Não que tivesse algum problema em contar algo para as outras quatro pessoas ali, o problema era outro: ele não sabia o que contar.

    - O Allan sabe, aposto que ele sabe! Vocês não entendem nada disso!

    Nada melhor para despertar de um pensamento que o nome da gente sendo dito inesperadamente.

    - Eu sei o que?

    - Onde você tava esse tempo todo, cara? Do que é que a gente tava falando? – disse Marcos.

    - Viajei. Fala, o que é que eu sei?

    - Pelo jeito, nada.

    - Engraçado, diz logo!

    - O nome do vocalista do Guns. Tem “e”?

    - É o que?

    - Ai, Allan, presta atenção. – Thaís achou melhor explicar – O Axl Rose? O nome dele. Escreve como? A-X-L ou A-X-E-L?

    - Essa era a discussão? Minha nossa, não, não tem “e”. Vocês sabiam disso. O Leo sabia disso, pelo amor de Deus. Todo mundo sabe disso.

    - E esse mau humor, seu chato, se deve a que?

    - TPM, a Aline entende bem disso.

    - Cala a boca, chato. – Aline se defendeu, brilhantemente. – O que você tem? Tá quieto demais hoje.

    - Não sei. Só pensando.

    O grupo ficou em silêncio. Sabiam que não adiantava insistir quando ele dava respostas assim. Allan tinha o tipo de maneira de se comunicar que era extremamente prático. Não costumava dizer um “não sei”, sabendo. Nem um “não quero falar”, querendo. As coisas com ele eram simples. Práticas.

    Depois de comer e de muita conversa besta, combinaram onde seria a próxima reunião da pizza, se despediram e cada um tomou seu caminho. Menos Aline.

    Aline não nasceu com a capacidade de deixar as coisas se resolverem sozinhas, ou deixar o tempo se encarregar de tudo e todos esses clichês que as pessoas falam o tempo todo. Ela tinha que resolver tudo. Ou no mínimo, saber exatamente o que se passava na cabeça de todo mundo, mesmo quando as pessoas deixavam explícito que não queriam dividir. Tinha o tipo de personalidade de mãe. Conversava com delicadeza, aconselhava, se metia. Reclamava e brigava e dava lição de moral quando algo não estava correndo como ela queria. Era explosiva e de vez em quando alguém tinha que lembrá-la de que todos ali tinham idade pra se cuidar. Não que ela se importasse muito, ou fizesse algum esforço pra pegar mais leve. Não era o tipo de pessoa que ligava para isso, mais ou menos como as mães.

    - Alan, espera.

    - Aline, eu tou legal, ta? Melhor você ir que já é tarde.

    - Não pense que vai escapar, todo mundo vê que você não ta bem. Por que você acha que pode me enrolar desse jeito? O que aconteceu?

    - Não aconteceu nada – Foi a melhor resposta, a mais completa e verdadeira que ele conseguiria dar naquela ocasião.

    - Olha, ninguém aqui ta entendendo nada. Espero que dê pra lembrar que pode contar com a gente. Comigo.

    Alan respirou fundo.

    - Desculpa, Aline. Foi mal toda essa grosseria, e ficar distraído a noite toda. O trabalho tá tirando meu sossego. Só preciso dormir um pouco. E pensar.

    - Você não quer mesmo dizer o que aconteceu, né?

    Uma vitória considerável ela ter percebido isso.

    - Não, Aline. Mas valeu a preocupação.

    Aline ficou em silêncio, pensativa. Ponderando se devia falar ou não.

    - Você quem sabe. Mas dá pra perceber uma coisa em você. Chato ou não, o que quer que tenha te afetado só tá te incomodando porque te tirou do tédio. E você, apesar de tudo, não tá com cara de quem odiou isso. E pra mim, isso tem um nome.

    - É? E qual é?

    - Ah, isso aí você me pergunta quando quiser conversar sobre o assunto. – Respondeu Aline, vitoriosa. Allan riu.

    - Ok, Aline. Você venceu. Eu te ligo outro dia, pode ser.

    - Tá bom. Até mais.

    Allan foi pra casa mais relaxado. A conversa o acalmou. Ele sabia que Aline estava certa. Se incomodava em não saber por que estava incomodado, aliás, afetado. Mas gostava de pensar sobre o assunto. Gostava de lembrar da garota. Era como sentir o perfume dela outra vez, ver aquele sorriso de quem tem um segredo pra contar, mas não pode. Aquela menina, sem dizer nada, tinha despertado nele algo que tinha nome, segundo Aline. Riu, pensando na ingenuidade dela. Aline queria viver no mundo perfeito.

    E rindo, pensou no sorriso de Julia. E se sentiu um babaca. Sensação essa que acabou se instalando nele como chiclete recém mastigado gruda na sola de sapato novo, e gruda no chão limpo de casa e sai deixando marcas chatas por toda a casa. E gruda nos seus dedos ou no que quer que você use pra tirar aquilo dali, mostrando que de jeito nenhum vai sair dali e que vai te dar trabalho até você aprender a olhar onde pisa. E que nunca sai completamente, deixando sempre pequenos vestígios na sola do sapato até você acostumar com aquilo ali e não se incomodar mais.

    Allan se sentia babaca com freqüência. Mas não daquela forma. O sorriso de uma garota certamente não era um motivo aceitável para se sentir babaca. E isso porque quando lembrava que estava se sentindo babaca por causa do sorriso de Julia, além de se sentir mais babaca, ele se sentia relativamente bem.

    “Não sei qual é o problema dessa garota, mas quando eu a encontrar, quero saber mais que um nome. Se eu vou me sentir idiota, quero ao menos ter motivos para isso.”

    -

    :*
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  2. 2 comentários:

    1. Gabi disse...

      Lembrei mesmo. E já li...
      Adoro amigas escritoras... fazem meus dias menos tediodos.

    2. Tuíla disse...

      *----*

      disponha sempre gabs!