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  1. domingo, 21 de fevereiro de 2010

    A primeira parte aqui.


    -

    Os dias passaram e a rotina continuava lá: sendo ela mesma. Allan acabou deixando de lado a menina estranha do dia de chuva. Naquela noite, repassou o episódio na cabeça. No dia seguinte, ela não apareceu. Ainda pensou nela por uns dois dias. E sempre que pensava, ele se pegava pensando no por quê disso. O que aquela menina tinha de especial?


    “Ela é estranha.” Concluiu.


    Optou por não pensar muito naquilo. “Aliás,” argumentava, “não tem nenhum ‘aquilo’ para ser pensado.” E não foi muito difícil esquecer. Tinha suas preocupações e sua rotina, boa e velha companheira. E os problemas. Esses faziam sempre questão de aparecer.


    Trabalhou loucamente o dia inteiro, e quando achou que não dava mais para o dia continuar, chegou a hora. Organizou tudo, trancou a loja e saiu. A rua estava vazia, um vento fraco e frio insistia em entrar pelo casaco. Allan se encolheu e andou até o ponto do ônibus. Hoje não era dia de ir direto para casa. Era dia de jantar na casa dos outros. Especificamente, Leo seria o dono da casa onde todos os amigos se juntariam naquela noite.


    Quando a menina apareceu no ponto do ônibus, Allan se sentiu gelar por dentro; aquele velho frio na barriga que dá quando alguém encontra alguém não queria ver. Ou queria muito. Mais tarde, naquela mesma noite, pensaria várias vezes: Por que, meu Deus? Ela não parecia ter visto ninguém ali. Nada além dela mesma. Olhava para os próprios pés e respirava fundo, como se quisesse fazer algo dentro dela se dissolver.


    “Falo ou não falo? O quê? Claro que não! Ela nem me viu. Não vou falar com a menina que apareceu na loja uma vez! Isso nem faz sentido. Eu vou falar. Não, não! Não vou. Falar o que? Que coisa idiota.”


    - Oi? Ah... Você é o cara da loja de música, né?

    Pego de surpresa.

    - É... A loja... De instrumentos...

    - É, isso. Oi!

    - Oi...

    “Besta, imbecil. Animal. Precisou a menina puxar conversa...”

    - Desculpa, teu nome é?

    - Julia. E você?

    - Allan.


    E o silêncio ficou ali. Não um silêncio pesado, daqueles em que a gente fica desesperado, pensando no que falar, louco para acabar com ele. Parecia simplesmente que, por enquanto, aquilo bastava para eles. Allan se concentrou no perfume que vinha dela. Suave, delicado. Diferente. Julia simplesmente olhava o poste. Concentrada, lia avisos antigos, colados ali há tempos, o papel já amarelado e meio rasgado. Por um minuto, passou pela cabeça de Allan se ela não estaria lendo para evitar falar com ele. Mais tarde, decidiu que isso não fazia sentido.


    - Giannini é uma marca boa?

    - Hum?

    - Achei que você entendesse disso, trabalha numa loja de música. – disse ela, apontando para o cartaz, onde alguém tentava vender um violão. O cartaz era bem antigo, já estava rasgado. Mas ainda servia, ao menos para uma conversa.

    - Ah, sim. É sim. É boa. E a loja vende instrumentos.

    - Tanto faz...

    - Não. – Allan tentou ser educado, mas era uma coisa dele: Ter uma opinião, e dividir. – Não dá pra vender a música ali. Talvez numa loja de CDs, no máximo. Ali só tem os instrumentos.


    Julia ficou apenas em silêncio. Olhou o cartaz, e os olhos de Allan. A expressão dele era de como quem se desculpava, não queria ofender, mas sabia que precisava dizer aquilo. Ela sorriu, tranqüila, como quem entende.


    - Mas dá pra fazer música com aquilo ali.

    - Você toca?

    - Não.

    - Então você provavelmente não conseguiria fazer música com nada daquilo ali, certo?

    “Agora peguei.”

    - Por que não? Talvez eu fizesse um som simpático. E aquilo pra mim poderia ser música.


    Allan olhou para ela, pensando desesperadamente em uma saída para aquela discussão. E meio chocado. Por que ela estava levando aquilo adiante? “Incrível. Conheci a menina há 5 minutos e já começo saindo errado.”


    - Mas ali a gente vende a ferramenta, algo como a matéria prima da música e não ela...

    Julia riu e colocou a mão no ombro dele.

    - Relaxa Allan, são instrumentos.


    Allan olhou para ela, envergonhado. Mas o sorriso tranqüilo dos olhos dela o fez relaxar. Naquele momento, não se sentiu bobo. Aquele sorriso, naquela hora, não deixava. Dava a sensação de que era tudo uma piada. E o tipo de piada que precisava ser contada.


    - É o meu ônibus. Até mais, Allan.

    - Hum... Tchau.


    “Talvez seja mesmo. Uma boa piada.” E riu.

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  2. 1 comentários:

    1. Anônimo disse...

      Posta mais, animalzinho.

      Mr Jack