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  1. sábado, 16 de janeiro de 2010

    Já era fim de expediente, numa tarde chuvosa de quinta-feira, e Allan contava os minutos para poder fechar a loja. O movimento tinha sido pouco, até mesmo para o pequeno comércio de instrumentos musicais no qual trabalhava há apenas 6 meses. Os dias de chuva eram sempre assim. E deixavam Allan com um humor sombrio. No início, tinha achado meio incômodo os fins de tarde que ficava sozinho na loja. O vendedor tinha mania de terminar seu expediente uma hora mais cedo, e ele ficava para fechar a loja. Mas aos poucos aquele tempo passou a ser suportável.


    Naquela tarde, Allan estava cansado, de mau humor, e com uma vontade enlouquecedora de voltar para casa. Tinha essa mania quando se sentia pressionado, chateado ou irritado. Corria para casa. Quando criança, era uma reação considerada covarde. Depois de adulto, passou a ser um escape necessário. Por isso, se sentia extremamente frustrado quando suas obrigações o impediam de voltar para casa.


    “Tenho mesmo que parar com essa mania. É ridícula.”


    Quando a garota entrou na loja, foi até uma surpresa. Não esperava que aparecesse ninguém no resto do dia, mesmo que a chuva tivesse diminuído até quase parar. Pensou logo que a menina estivesse ali somente para se esconder dos poucos pingos que ainda caíam, mas ela começou a olhar os instrumentos, um a um. Como se realmente tivesse saído de casa com aquela intenção.


    - Posso ajudar?

    - Obrigada, to só dando uma olhada. – ela respondeu sem se virar.


    “Desde que não me incomode” – pensou, olhando para o relógio de parede. Faltavam 10 minutos para fechar a loja. Decidiu dar mais um tempo à moça, antes de avisá-la.


    O balcão do caixa estava uma bagunça. Papéis por toda parte, alguns deles relativamente importantes para estarem ali. Separou úteis de inúteis. Jogou fora os últimos e guardou os primeiros na gaveta e trancou. Canetas que não funcionavam; todo dia Allan pensava porque ninguém ainda tinha se livrado delas. A menina continuava andando. Olhava as guitarras da vitrine interna. Testou todas as canetas num dos papéis inúteis restantes. Ela parecia ter se interessado numa guitarra vermelha, muito bonita. Jogou fora as canetas que não funcionavam, que incrivelmente estavam em maior número que as que funcionavam. “Como quase tudo na minha vida, ultimamente”. 3 minutos para fechar a loja.


    - Moça, desculpe interromper, mas eu tenho que fechar a loja agora. Se estiver interessada na guitarra, podemos conversar sobre isso...

    - Ah... Não, eu não toco guitarra. Mas obrigada mesmo assim. – respondeu com um sorriso simples, como se fosse a coisa mais óbvia.

    - Hum. Ok, então. Então... Se não se incomoda, preciso realmente fechar. Mas fique à vontade para voltar e olhar os outros instrumentos...

    - Ah, claro. Eu não toco nenhum instrumento, nem entendo de música. De fazer música, quero dizer. Gosto de ouvir muita coisa, de muitos tipos, mas enfim. Nunca tentei tocar nada, na verdade. Mas obrigada assim mesmo. Apareço outro dia. Tchau.


    A garota saiu da loja tranquilamente. Parou na porta da loja e olhou para o céu nublado, porém sem chuva. Saiu andando, subindo a rua. Parecia ter realmente saído de casa com o objetivo de visitar a loja de instrumentos e não parecia ter voltado frustrada.


    Allan continuou olhando para a parte da rua que era visível daquele ponto da loja. A menina sumiu de vista. Olhou de volta para o balcão, agora mais organizado. Fixou-se nas canetas que funcionavam por quase dois minutos inteiros. A rua já estava vazia de novo. Tranqüila. O molho de chaves da loja fazia peso no seu bolso.


    “Eu realmente preciso ir para casa.”





    -


    As vezes eu escrevo coisas diferentes, ué?

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