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  1. domingo, 31 de maio de 2009

    Tem coisa que me chateia de um jeito nada legal.
    Um jeito esquisito. Não é como uma raiva normal. Na hora, dá aquela clássica vontade de quebrar tudo e sair com cara de 'Fui eu, e daí?'. E essa vontade sempre passa, é verdade. Isso acontece com uma raiva normal. Mas, nesse caso, no lugar fica uma sensação Esquisita. Com E maiúsculo porque é a palavra que melhor define o troço.

    Deixa ver se eu explico:
    A pessoa tá lá, feliz da vida. Tá tudo tranquilo e tal. E do nada alguma coisa [ou nada, dependendo da gravidade da situação] acaba lhe lembrando o acontecimento causador da chateação. Isso é BEM irritante. Porque eu fico logo de cara fechada. Quieta, o que no meu caso, é muito estranho, uma vez que eu nasci sem essa capacidade. Eu sou meio hiperativa, a maior parte do tempo. Se eu fecho a boca, é um problema bem grave. E se eu responder a perguntas como: "O que foi? O que tu tem?" com um simples: "Nada, só tou na minha", pode ter certeza que tem alguma coisa, sim, só que eu não sei, ou não acho relevante explicar ;]

    Essa do não acho relevante foi profunda. Xô explicar essa:
    Normalmente é uma coisa bem sem importânciazinha. Ou talvez só seja mesmo importante pra mim [o que é o caso]. Por mais que digam que não, ninguém realmente vê a profundidade da situação. Se eu contasse, simplesmente tentariam ao máximo disfarçar enquanto pensavam "Mas que merda. Não acredito que essa guria tá com essa cara 'eu odeio o mundo' por causa disso! Emo ¬¬"
    Sim, todo mundo pensa isso, que eu sei. Eu penso, às vezes. Mas uma hora alguém se lembra de que o problema de uma pessoa, a partir do momento que faz mal a ela, tem sua importância. Pelo menos eu penso assim. Mas voltando...

    O fato é que eu queria ter força mental/capacidade de esquecer essas coisinhas irritantes que botam a perder meus bons momentos. Estragam um pedaço consideravelmente legal do meu dia e acabam me fazendo dar foras desnecessários nas pessoas e/ou perder toda a diversão daquele minuto. E vão se juntando com outros problemas, grandes e pequenos, até me morgar de vez. Isso é bem ruim.

    Mas quem sabe tudo isso não seja também sem importância?
    Acho que eu só tou emo porque Bob foi embora. É, deve ser.




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  2. Hoje de manhã, entrei inocentemente no quarto da minha irmã pra varrê-lo [Isaura Mode On] e dei de cara com uma das poucas Barbies dela que nós duas não detonamos de tanto brincar. Ela ainda tinha a roupa original, bem velha, mas inteira, e os cabelos todos [as outras nós fizemos cortes super modernos :x] e estava consideravelmente limpa.

    Apesar de ter brincado de Barbie bastante depois que minha irmã nasceu, eu nunca fui com a cara daquela boneca. Juro. Desde sempre elas me davam umas agonias. Tinham aquela cintura desproporcionalmente fina, uns peitos estranhos, uma ausência de bunda e umas pernas finas. Aquelas roupas que eu nunca vi ninguém usar na rua e um cabelo aparentemente perfeito até você tocar nele ou molhar [acho que isso acontece com o cabelo de muita gente hoje em dia, mas, enfim.].

    Mas o que mais me dava um desespero naqueles seres alienígenas era o rosto. O sorriso estranho e falso demais até pra uma boneca me dava a sensação de que aquilo poderia ter sido inspirado em qualquer coisa, menos numa pessoa.
    No meu tempo, toda menina queria ser igual a Barbie. Eu não. Primeiro por causa do nome. Que raio de nome é Barbie? Na minha cabeça nunca entrou que uma pessoa pudesse se chamar Barbie. Muito menos que pudesse ter um corpo/cabelo/rosto que parecia ter sido enfiado num molde para sair do jeito que as pessoas pudessem considerar perfeito. Porque, meu Deus, o rosto da Barbie é congelado num sorriso e não mostra uma marca mínima que seja? Um covinha ou coisa assim? E porque aquela criatura loira e maléfica não tinha NENHUM sinal? Todo mundo que eu já vi na minha vida tem um sinal em algum lugar. Aquela tentativa falsa de imitação de ser humano não tinha.

    Eu sempre preferi as 'Bonecas de Feira'. Umas imitações [ou não] da Barbie, sendo que baratas e, aparentemente, de baixa qualidade. Pra mim isso não interessava. Eu preferia essas. Não só porque minha mãe não ameçava me esganar quando um braço da boneca soltava, ou quando eu cortava os cabelos, ou derrubava ela no chão porque ela era algum tipo de super-heroína que perdeu os poderes em pleno vôo. Isso também me animava... Mas tinha algo mais.

    Uma vez eu ganhei uma boneca de feira bem diferente da Barbie. Não lembro quem me deu. Mas eu lembro dela. Ela ainda deve existir aqui em casa. Ela não era altona. Parecia uma menina de 11 ou 12 anos. Tinha os braços e pernas articuladas, o que me encantou porque era bem melhor pra a imitação de Max Steel que eu sempre tentei fazer com minhas Barbies e nunca consegui porque elas não dobravam os joelhos. Eu grudei um palito de dente em uma das mãos dela e botei uma cordinha pra prender/soltar o palito quando eu quisesse na outra. Enchi meu quarto de cordão e pendurava a boneca ali. E ela ia descendo a cordinha magicamente.
    Enfim.
    Eu amava aquela boneca porque pra mim ela parecia muito mais com uma pessoa do que nenhuma Barbie ou Susy poderia parecer. Ela tinha um sorriso simples, daqueles bem normais, bem diferente daqueles sorriso-de-consulta-no-dentista que a Barbie tem. Não era aquela cara falsa de "Oi, eu quero agradar". A minha boneca não me lembrava em nada aquela coisa fabricada num molde pra vender. Ninguém tinha uma daquela, pelos menos não que eu conhecesse. Ela já chegou nas minhas mãos com aparência de velha e acabada, mas de quem aguentaria o tranco necessário pra me distrair. Meu primo deu apelidos bizarros, porque ela era realmente muito feia. Tinha exatamente o corpo que eu tinha quando estava com 12 anos: uma coisinha magrela e esquálida. Mas era única.

    Hoje em dia as tais articulações estão folgadas, o que faz as pernas dela dobrarem nos joelhos formando um ângulo assustador e anti natural do tipo que se vê em acidente de filme. Por causa disso ela não fica mais em pé [nunca ficou, pelo que eu me lembro]. O macacão amarelo que ela usa tá sujo de oléo de alguma brincadeira minha da garagem da casa onde eu morava. Ela não tem mais cabelos. Caíram todos, provavelmente porque nós duas tivemos uma ou outra aventura submarina. As mãos estão manchadas de tanta fita adesiva que eu grudei pra montar a parada-do-palito-de-dente. Ela tá literalmente só o bagaço.
    Mas ela tem mais história que todas as outras. Ela servia pra brincar de verdade porque diferente de todas as outras, ela se mexia. Ela não usava uma saia ou um vestido curto como as outras, e por isso ela podia se subir e descer e fazer o que quisesse. Ela não era bonita mas eu nunca me importei. As outras eram todas iguais. Ela era diferente. E eu preferia brincar com ela.

    Um dia eu achei a minha boneca feia. Porque ela tava careca. Tentei colocar coisas na cabeça dela, pra parecer um chapéu e esconder o que deixava ela mais obviamente diferente das outras. Mas o chapéu ficava caindo. Eu também troquei as roupas dela, porque eram velhas. Mas os vestidos [e saltos altos] que eu tinha não serviam porque não deixavam a boneca dar os golpes de Kung Fu necessários para a minha brincadeira. Aí eu desisti e deixei a boneca como ela era de verdade. E brinquei.

    De uns tempos pra cá eu fiz isso comigo mesma. Eu sempre me senti diferente, estranha talvez, mas sempre me achei mais feliz que a maioria das meninas que eu conheço. Porque eram todas clones umas das outras, que eram clones de mulheres que elas viam em revistas e queriam ser iguais. Iguais. Sempre iguais. Aquelas mulheres pra mim não eram de verdade. Elas nunca lutaram ou foram humilhadas, ou tratadas mal e xingadas. Elas nunca passaram pelas coisas que mulheres de verdade passam. São bonecas, feitas pra serem deixadas em vitrines, e não são preperadas pra a vida. São como as minhas Barbies eram nas brincadeiras que eu costumava fazer com a minha Boneca. Elas não servem.
    Por um minuto eu quis ser uma das que não serve. Não sei porquê. TPM provavelmente. Mas o que importa é que isso me fez ver. Que mesmo com todos os meus defeitos, eu amo ser eu. E não me importa que os outros achem que eu raramente consigo me parecer com uma menina normal. Eu não quero me parecer com ninguém. Eu quero viver e pra isso, eu sou perfeita.
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